Do PT à direita, com presença marcante no Centrão, ex-banqueiro Vorcaro acumulou bilhões de reais com venda de títulos e contratos de consignado a governos e servidores
Daniel Vorcaro, do Banco Master, teve apoio pluripartidário nos Estados. (Foto: Reprodução/Instagram)
Os negócios do Banco Master com governos estaduais de todas as regiões evidenciaram o caráter pluripartidário dos tentáculos de Daniel Vorcaro. Da esquerda à direita, com presença marcante no Centrão, o ex-banqueiro amealhou bilhões de reais com a venda de títulos para fundos de pensão de servidores e com contratos de crédito consignado com governos e servidores da Bahia, Rio de Janeiro, Amapá e Distrito Federal.
Na Bahia, governada desde 2007 pelo PT, a relação com o Master está na origem do modelo que sustentou a expansão do banco. O ponto de partida foi a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), durante o governo do atual ministro da Casa Civil, Rui Costa (2015-2022). O empresário Augusto Lima comprou a Ebal e passou a operar o cartão consignado Credcesta, com exclusividade de 15 anos e acesso a cerca de 400 mil servidores públicos, aposentados e pensionistas. Para escalar a operação, Lima se associou a Vorcaro, que entrou no negócio e ficou com metade do Credcesta.
Com trânsito político privilegiado na Bahia, Lima se tornou um dos principais personagens do caso. Ele foi alvo da operação Compliance Zero, chegou a ser preso e teve a quebra de sigilo aprovada pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Atualmente, responde em liberdade.
A atuação na Bahia não se restringe aos petistas. No dia 11, o jornal O Globo revelou que o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag. Ele afirmou que os valores são referentes a serviços de consultoria devidamente declarados e se colocou à disposição para prestar esclarecimentos à Justiça.
O caso mais emblemático, contudo, aconteceu no Distrito Federal, governado por Ibaneis Rocha (MDB), cuja candidatura ao Senado ficou em xeque. O Banco de Brasília (BRB) negociou ao longo de 2025 a compra de 58% do Master por cerca de R$ 2 bilhões. Antes e durante as negociações, houve uma série de operações entre as duas instituições. A principal se deu em janeiro de 2025, quando o banco adquiriu carteiras do Master no valor de R$ 12 bilhões. Posteriormente, esses ativos apresentaram inconsistências e a transação foi vetada pelo Banco Central (BC), que pouco tempo depois viria a decretar a liquidação do Master. A situação do BRB segue delicada.
A assessoria de Ibaneis disse que o caso está sendo tratado pelo BRB. Em entrevista ao Valor, o atual presidente do BRB, Nelson de Souza, disse que o banco foi “vítima” no esquema de fraudes do Master.
No Rio, o envolvimento se deu por meio da RioPrevidência, entidade responsável pela gestão de aposentadorias e pensões dos servidores estaduais. Entre 2023 e 2024, o fundo investiu quase R$ 1 bilhão em letras financeiras do Master. As decisões foram tomadas durante a gestão de Cláudio Castro (PL), que renunciou ao mandato, mas mesmo assim foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Os gestores da RioPrevidência mantiveram os aportes mesmo após alertas do Tribunal de Contas do Estado (TCE) sobre os riscos das operações. Após a liquidação do Master, os valores investidos ficaram expostos a perdas. Em reação, a RioPrevidência passou a buscar a retenção de fluxos financeiros, especialmente ligados a operações consignadas.
O comprometimento das aposentadorias de servidores também preocupa no Amapá, reduto político do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) – ícone do Centrão. A operação do Master ocorreu por meio da Amapá Previdência (Amprev), que aplicou cerca de R$ 400 milhões em letras financeiras do banco em julho de 2024. A decisão foi tomada em um curto intervalo de tempo, em reuniões do comitê de investimentos.
O principal responsável foi o então diretor-presidente Jocildo Silva Lemos, próximo a Alcolumbre e ex-presidente da Liga das Escolas de Samba do Amapá. Com a liquidação do Master, a Amprev adotou medidas para tentar preservar o patrimônio, incluindo a retenção de valores vinculados ao banco e o depósito em contas sob supervisão judicial.
“Estamos atuando de forma técnica e permanente, junto ao governo do Estado, para acompanhar a situação e garantir a proteção e a recomposição dos recursos que pertencem aos servidores do Amapá”, disse a nova diretora-presidente da Amprev, Nair Mota. Alcolumbre não se manifestou. (Com informações do Valor Econômico)
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