Davi Alcolumbre (foto) foi o protagonista do movimento de bastidor contra Jorge Messias. (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)
Desde o fim do século XIX, a aprovação dos indicados ao Supremo Tribunal Federal (STF) transcorria sem sobressaltos no Senado. Na quarta-feira (29), a escrita foi rompida. O plenário rejeitou o advogado-geral da União, Jorge Messias – ele recebeu 42 votos contrários e apenas 34 favoráveis, sete aquém do mínimo para aprovação. Pela Constituição, é prerrogativa dos senadores aprovar ou barrar quem bem entenderem depois da sabatina na Comissão de Constituição e Justiça.
Não há, portanto, reparo a fazer ao direito de agirem na direção que acharem melhor. Ainda assim, o ineditismo é revelador. Expõe o grau de contaminação política de uma escolha que deveria se guiar por critérios de outra natureza – as exigências constitucionais de notável saber jurídico e reputação ilibada.
Ao transformar a votação para cargo de tamanha importância em campo de batalha política, os presidentes da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), prestaram um desserviço ao País. Alcolumbre foi o protagonista do movimento de bastidor contra Messias.
Desde o início, quando seu aliado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) foi preterido, ele sentiu-se contrariado. A resistência no Senado levou Lula a adiar a oficialização da indicação por cinco meses (antes, já tinha sido descortês com o Senado ao comunicá-la pelo Diário Oficial). No fim, parecia convencido de que o nefasto toma lá dá cá bastaria para convencer os senadores. Mas, vendo o governo enfraquecido, Alcolumbre preferiu se aliar à oposição para impor uma derrota acachapante ao presidente em fim de mandato.
Lula agiu com soberba e revelou inépcia na articulação. Messias, cujos vínculos com o PT são profundos, é o terceiro nome que ele indica ao STF neste mandato, com base mais na lealdade que nas credenciais jurídicas. Como não houve empecilho às indicações anteriores – Cristiano Zanin (seu advogado pessoal) e Flávio Dino (ex-ministro da Justiça) –, confiou que a aprovação seria automática, como historicamente tem sido. Enquanto isso, se acumulavam tensões e frustrações do governo no Congresso. Nos dias que antecederam a votação, ninguém no Planalto parecia enxergar a derrota iminente.
O mais grave do episódio não é a rejeição de Messias em si, mas a transformação de uma instituição republicana essencial em tabuleiro de jogo político. De um lado, um presidente da República que, no atual mandato, deixou em segundo plano o saber jurídico dos indicados, preocupado apenas em garantir decisões favoráveis no STF.
De outro, um presidente do Senado sem nenhum constrangimento em transformar qualquer votação em objeto de negociatas. Qualquer que fosse o desfecho, deveria ter sido resultado de avaliação jurídica na sabatina. Não foi o que aconteceu. O desvirtuamento político das indicações ao Supremo só contribui para minar a credibilidade da Corte.
Agora, Lula e Alcolumbre têm de deixar de lado suas rusgas pessoais. O primeiro deve indicar outro nome, e o segundo marcar uma nova sabatina tão logo seja possível. O STF não pode ficar mais tempo com um ministro a menos. Não apenas pelo acúmulo de processos ou pelo atraso em decisões. Mas porque é o que exige a Constituição para o funcionamento dessa instituição crucial para a democracia. (Editorial publicado no jornal O Globo)
Para os integrantes do Supremo, é fundamental que os votos sejam compreensíveis para o público em geral. (Foto: Wallace Martins/STF) Integrantes da Suprema Corte ouvidos pelo blog do Camarotti, no portal G1, destacaram que, na próxima semana, os votos dos ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) deverão ser especialmente didáticos ao tratarem …
Heleno foi levado ao Comando Militar do Planalto em 25 de novembro por ter determinação do ministro Alexandre de Moraes. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Heleno foi levado ao Comando Militar do Planalto em 25 de novembro por ter determinação do ministro Alexandre de Moraes. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil) Militares que visitaram o general Augusto Heleno …
Em 2023, o ex-procurador foi cassado do cargo de deputado federal. (Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados) O ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo) anunciou nessa terça-feira (24), que será candidato ao Senado pelo Paraná. Em maio de 2023, o ex-procurador da Operação Lava-Jato teve seu registro de candidatura cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e perdeu …
Em dezembro, segundo o Datafolha, o filho de Bolsonaro era rejeitado por 38% dos eleitores. (Foto: Reprodução) A pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) identificou um aumento de ataques contra o senador nas redes sociais nas últimas semanas, em meio ao crescimento do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais. A estratégia, por enquanto, …
Desde o fim do século XIX, a aprovação dos indicados ao Supremo transcorria sem sobressaltos no Senado
Davi Alcolumbre (foto) foi o protagonista do movimento de bastidor contra Jorge Messias. (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)
Desde o fim do século XIX, a aprovação dos indicados ao Supremo Tribunal Federal (STF) transcorria sem sobressaltos no Senado. Na quarta-feira (29), a escrita foi rompida. O plenário rejeitou o advogado-geral da União, Jorge Messias – ele recebeu 42 votos contrários e apenas 34 favoráveis, sete aquém do mínimo para aprovação. Pela Constituição, é prerrogativa dos senadores aprovar ou barrar quem bem entenderem depois da sabatina na Comissão de Constituição e Justiça.
Não há, portanto, reparo a fazer ao direito de agirem na direção que acharem melhor. Ainda assim, o ineditismo é revelador. Expõe o grau de contaminação política de uma escolha que deveria se guiar por critérios de outra natureza – as exigências constitucionais de notável saber jurídico e reputação ilibada.
Ao transformar a votação para cargo de tamanha importância em campo de batalha política, os presidentes da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), prestaram um desserviço ao País. Alcolumbre foi o protagonista do movimento de bastidor contra Messias.
Desde o início, quando seu aliado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) foi preterido, ele sentiu-se contrariado. A resistência no Senado levou Lula a adiar a oficialização da indicação por cinco meses (antes, já tinha sido descortês com o Senado ao comunicá-la pelo Diário Oficial). No fim, parecia convencido de que o nefasto toma lá dá cá bastaria para convencer os senadores. Mas, vendo o governo enfraquecido, Alcolumbre preferiu se aliar à oposição para impor uma derrota acachapante ao presidente em fim de mandato.
Lula agiu com soberba e revelou inépcia na articulação. Messias, cujos vínculos com o PT são profundos, é o terceiro nome que ele indica ao STF neste mandato, com base mais na lealdade que nas credenciais jurídicas. Como não houve empecilho às indicações anteriores – Cristiano Zanin (seu advogado pessoal) e Flávio Dino (ex-ministro da Justiça) –, confiou que a aprovação seria automática, como historicamente tem sido. Enquanto isso, se acumulavam tensões e frustrações do governo no Congresso. Nos dias que antecederam a votação, ninguém no Planalto parecia enxergar a derrota iminente.
O mais grave do episódio não é a rejeição de Messias em si, mas a transformação de uma instituição republicana essencial em tabuleiro de jogo político. De um lado, um presidente da República que, no atual mandato, deixou em segundo plano o saber jurídico dos indicados, preocupado apenas em garantir decisões favoráveis no STF.
De outro, um presidente do Senado sem nenhum constrangimento em transformar qualquer votação em objeto de negociatas. Qualquer que fosse o desfecho, deveria ter sido resultado de avaliação jurídica na sabatina. Não foi o que aconteceu. O desvirtuamento político das indicações ao Supremo só contribui para minar a credibilidade da Corte.
Agora, Lula e Alcolumbre têm de deixar de lado suas rusgas pessoais. O primeiro deve indicar outro nome, e o segundo marcar uma nova sabatina tão logo seja possível. O STF não pode ficar mais tempo com um ministro a menos. Não apenas pelo acúmulo de processos ou pelo atraso em decisões. Mas porque é o que exige a Constituição para o funcionamento dessa instituição crucial para a democracia. (Editorial publicado no jornal O Globo)
Related Posts
Ministros do Supremo vão usar votos para diferenciar crimes de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito
Para os integrantes do Supremo, é fundamental que os votos sejam compreensíveis para o público em geral. (Foto: Wallace Martins/STF) Integrantes da Suprema Corte ouvidos pelo blog do Camarotti, no portal G1, destacaram que, na próxima semana, os votos dos ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) deverão ser especialmente didáticos ao tratarem …
Militares veem Heleno “aéreo” na prisão e ampliam pedido para ex-ministro cumprir prisão domiciliar
Heleno foi levado ao Comando Militar do Planalto em 25 de novembro por ter determinação do ministro Alexandre de Moraes. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Heleno foi levado ao Comando Militar do Planalto em 25 de novembro por ter determinação do ministro Alexandre de Moraes. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil) Militares que visitaram o general Augusto Heleno …
Deltan Dallagnol tenta voltar ao Congresso com pré-candidatura ao Senado no Paraná
Em 2023, o ex-procurador foi cassado do cargo de deputado federal. (Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados) O ex-deputado federal Deltan Dallagnol (Novo) anunciou nessa terça-feira (24), que será candidato ao Senado pelo Paraná. Em maio de 2023, o ex-procurador da Operação Lava-Jato teve seu registro de candidatura cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e perdeu …
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro identificou um aumento de ataques nas redes sociais. A estratégia, por enquanto, é de continuar a “jogar parado”, sem “bater boca” com Lula e seus aliados
Em dezembro, segundo o Datafolha, o filho de Bolsonaro era rejeitado por 38% dos eleitores. (Foto: Reprodução) A pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) identificou um aumento de ataques contra o senador nas redes sociais nas últimas semanas, em meio ao crescimento do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas eleitorais. A estratégia, por enquanto, …