Estratégia de Kassab reúne Caiado, Leite e Ratinho em seu partido. (Foto: Reprodução/X)
Se a terceira via tem poucas chances de eleger o presidente em 2026, por que então lançar um candidato? Por que Gilberto Kassab reuniu três pré-candidatos – Ratinho Jr., Eduardo Leite e Ronaldo Caiado – em seu partido? Para entender, é preciso olhar para o outro grande prêmio dessas eleições: o controle do Congresso Nacional.
Desde a redemocratização, nenhum partido conseguiu obter o controle simultâneo dos Poderes Executivo e Legislativo. O sistema partidário é fragmentado e opera com diferentes sistemas eleitorais (majoritário e proporcional) em um território muito extenso. Esse problema se agravou na década passada, quando a Operação Lava Jato atingiu duramente os três principais partidos do país até então (PT, PSDB e PMDB). O vácuo foi preenchido por partidos médios (PL, DEM/União, PP, Republicanos, PSD), que passaram a competir de igual para igual pelo controle do Executivo e do Legislativo.
Essa competição entre os partidos, porém, vem evoluindo na última década à medida que a reforma política pós-Lava Jato começa a surtir efeito. Medidas como o financiamento público de campanha e a cláusula de desempenho têm contribuído para a gradual consolidação do sistema partidário. Ele está ficando menos fragmentado. A tendência, em 2026, é a de que esses partidos, que concentram a maior parte dos recursos disponíveis para campanha, continuem a ser os mais competitivos e aumentem suas bancadas.
Nenhum partido ainda será capaz de eleger sozinho a maioria da Câmara e do Senado. Mas, nessa fase de consolidação do sistema partidário, o resultado importa muito, pois ele pode determinar o domínio de um ou alguns desses partidos por um período longo. Hoje, as principais bancadas da Câmara não diferem muito, entre 40 e 70 deputados. A exceção é o PL, mas também não por muito; ele tem perdido deputados e deve encolher ainda mais durante a janela partidária, provavelmente ficando abaixo de 90 deputados em breve. Se um ou dois desses partidos romper esse equilíbrio e eleger uma bancada significativamente maior, ele terá capacidade desproporcional de influenciar a agenda legislativa (via Presidência da Câmara) e concentrará mais recursos (via emendas parlamentares e fundos partidário e eleitoral). O mesmo vale para o Senado. Todos os partidos querem dar essa sorte. Ou, no mínimo, não querem ver seus concorrentes despontarem, enquanto caminham para a irrelevância.
Esse é o contexto para as decisões de Kassab. É claro que eleger o presidente da República seria ideal para o PSD. Pouca chance é diferente de chance nenhuma, e candidatos como Ratinho Jr. podem mesmo se beneficiar do cansaço do eleitor com a polarização entre Lula e Bolsonaro. Mas essa não parece ser a prioridade. O que vale mesmo é ganhar a corrida contra os outros partidos, e cada um está pegando carona na eleição presidencial de uma maneira diferente.
O PL está repetindo a bem-sucedida aposta de 2022, ocupando o polo ideológico do antipetismo para lançar um candidato a presidente que lhe permita ganhar projeção nacional, com capilaridade em todos os Estados. Mas só há dois polos hoje, e o outro é ocupado por Lula e o PT desde a redemocratização. Essa estratégia, portanto, não serve para os demais. Outros partidos, então, tentam pegar carona nas candidaturas presidenciais mais fortes, colocando-se como postulantes a vice. É o caso do PP e do União, que formam uma federação. O que eles têm a oferecer é estrutura de campanha. O custo, porém, é vincular-se de forma mais nítida a um dos polos da eleição.
O PSD, então, propõe uma abordagem diferente: lançar um candidato presidencial desvinculado dos polos ideológicos. A vantagem dessa estratégia é permitir que as lideranças do partido em cada Estado conduzam a campanha de forma mais eficiente, de acordo com as preferências dos eleitores daquele Estado. Pedem voto para o Lula no Nordeste e para Bolsonaro no Sul. Em alguns casos, podem dar palanque ao candidato do próprio partido também, mas essa não é uma exigência intransponível. É a mesma abordagem do MDB em 2022, com a candidatura de Simone Tebet.
Para o PSD, o custo dessa estratégia é a perda de barganha nas negociações regionais. Em São Paulo, por exemplo, ter um candidato próprio à presidência aumenta o custo para que o próprio Kassab seja o vice de Tarcísio – embora não inviabilize essa opção. (Silvio Cascione/Agência Estado)
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Desde a redemocratização, nenhum partido conseguiu obter o controle simultâneo dos Poderes Executivo e Legislativo
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Essa competição entre os partidos, porém, vem evoluindo na última década à medida que a reforma política pós-Lava Jato começa a surtir efeito. Medidas como o financiamento público de campanha e a cláusula de desempenho têm contribuído para a gradual consolidação do sistema partidário. Ele está ficando menos fragmentado. A tendência, em 2026, é a de que esses partidos, que concentram a maior parte dos recursos disponíveis para campanha, continuem a ser os mais competitivos e aumentem suas bancadas.
Nenhum partido ainda será capaz de eleger sozinho a maioria da Câmara e do Senado. Mas, nessa fase de consolidação do sistema partidário, o resultado importa muito, pois ele pode determinar o domínio de um ou alguns desses partidos por um período longo. Hoje, as principais bancadas da Câmara não diferem muito, entre 40 e 70 deputados. A exceção é o PL, mas também não por muito; ele tem perdido deputados e deve encolher ainda mais durante a janela partidária, provavelmente ficando abaixo de 90 deputados em breve. Se um ou dois desses partidos romper esse equilíbrio e eleger uma bancada significativamente maior, ele terá capacidade desproporcional de influenciar a agenda legislativa (via Presidência da Câmara) e concentrará mais recursos (via emendas parlamentares e fundos partidário e eleitoral). O mesmo vale para o Senado. Todos os partidos querem dar essa sorte. Ou, no mínimo, não querem ver seus concorrentes despontarem, enquanto caminham para a irrelevância.
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O PSD, então, propõe uma abordagem diferente: lançar um candidato presidencial desvinculado dos polos ideológicos. A vantagem dessa estratégia é permitir que as lideranças do partido em cada Estado conduzam a campanha de forma mais eficiente, de acordo com as preferências dos eleitores daquele Estado. Pedem voto para o Lula no Nordeste e para Bolsonaro no Sul. Em alguns casos, podem dar palanque ao candidato do próprio partido também, mas essa não é uma exigência intransponível. É a mesma abordagem do MDB em 2022, com a candidatura de Simone Tebet.
Para o PSD, o custo dessa estratégia é a perda de barganha nas negociações regionais. Em São Paulo, por exemplo, ter um candidato próprio à presidência aumenta o custo para que o próprio Kassab seja o vice de Tarcísio – embora não inviabilize essa opção. (Silvio Cascione/Agência Estado)
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