Trump, diz Spektor, é “pouco confiável” e tem como modus operandi um vaivém constante. (Foto: The White House)
Autor de livros que analisam diferentes momentos da relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos, o pesquisador Matias Spektor afirma que a sinalização de Donald Trump ao dizer que a conversa com Lula foi “muito boa” representa uma vitória para o presidente brasileiro. É preciso, no entanto, adotar cautela. Trump, diz Spektor, é “pouco confiável” e tem como modus operandi um vaivém constante.
O professor da Escola de Relações Internacionais da FGV avalia ainda que o americano não hesitará em sacrificar Bolsonaro se perceber que pode obter ganhos na relação com Lula.
1) A sinalização de Trump de que a conversa com Lula foi “muito boa” é uma vitória para o brasileiro e uma derrota do bolsonarismo?
Sim, no sentido de que abriu a possibilidade de negociações, e era isso que o governo queria. É também uma derrota para o bolsonarismo porque, ao abrir a possibilidade de negociações, dificulta o trabalho de Eduardo Bolsonaro, que tenta criar uma muralha entre os governos Trump e Lula. Agora, o motivo pelo qual isso aconteceu não é necessariamente porque o Brasil conseguiu virar a opinião de Trump, é mais porque o processo decisório no governo Trump é muito bagunçado. Não há disciplina suficiente dentro do governo para manter uma linha só em cada área. Trump é o presidente do vaivém, então precisamos ser cautelosos com a sinalização dele.
2) Como avalia a “química” entre Lula e Trump, depois de meses de tensão?
Trump é, antes de mais nada, um negociador. Foi treinado e se desenvolveu como personalidade pública, desde o início, no setor imobiliário. Negociar duramente é da essência de quem ele é. Portanto, é natural que coloque uma ênfase enorme no laço interpessoal, no olho no olho, na química, e isso é muito parecido com o estilo do Lula, que também é um negociador exímio. A diferença entre eles é o estilo negociador em si. Trump tem um estilo abrasivo, que chega chutando a porta e virando a mesa na cara do oponente, ao passo que Lula é da conciliação.
3) No livro “18 dias”, o senhor se refere a essa mesma “química” ao apontar como Lula fez um encontro com Bush durar mais que o previsto em 2002. Esse personalismo na política externa é uma marca do petista?
O personalismo é a marca registrada tanto de Trump quanto de Lula. O que significa que num processo de conversa bilateral cara a cara entre eles podemos ver uma virada de jogo da qual os dois saiam com um entendimento melhor do que têm hoje. Mas também pode ser uma situação de muito risco para Lula, na qual a química desanda rapidamente. Isso dito, já vimos que personagens que Trump destrata num primeiro momento, como Zelensky, podem acabar virando o jogo. Porque a situação muda: Trump é imprevisível, pouco confiável. O jogo com Trump não é tentar um acordo perene. São sempre movimentos táticos, de momento a momento: chutar a bola para frente e manter o jogo em movimento. Essa é a dinâmica que Lula precisa fazer. Trump é muito inconfiável para qualquer parceiro achar que pode estabelecer um equilíbrio sustentável a longo prazo.
4) O que achou dos temas mencionados na conversa por telefone, que preteriu as pautas mais políticas?
A Casa Branca e o Planalto conseguiram montar uma conversa em que os presidentes puderam conversar se mantendo distantes do tema que causou inicialmente a imposição de tarifas, que é a situação política e jurídica do bolsonarismo. Como esse tema está na origem do problema, é plausível que volte a aparecer na agenda bilateral nos próximos meses, sobretudo num contexto eleitoral brasileiro. No entanto, é igualmente plausível que Trump esteja disposto a sacrificar Bolsonaro se entender que na relação com o governo Lula há ganhos concretos para os Estados Unidos, seja na área comercial ou diplomática.
5) Na futura conversa presencial, Lula deveria mencionar temas políticos ou evitá-los?
É possível, e muito provável, que Trump traga à tona o processo de Bolsonaro. E para Lula a única resposta possível é dizer, corretamente, que a Corte Suprema brasileira é separada do Executivo e que não há nada que o presidente possa fazer para reverter a decisão. Mas Lula tem que esperar Trump trazer essas questões, não ele mesmo levá-las. O foco de Lula, no entanto, não deveria estar apenas na questão comercial. A agenda financeira é gigantesca, a diplomática também. Brasil e EUA trabalham juntos em muitas instâncias.
6) Trump parece de fato preocupado com a situação de Bolsonaro ou isso é uma cortina de fumaça para maquiar outros interesses?
Trump tem uma preocupação real com o Bolsonaro que é a preocupação com a trajetória da nova direita mundo afora. Essa preocupação não me parece cortina de fumaça, mas também não significa que Trump não tenha outros interesses. De novo: se perceber que nas conversas com Lula está tirando um bom negócio para os Estados Unidos, não hesitará em concretizar essa vitória, mesmo que isso signifique sacrificar Bolsonaro na pessoa física. (Com informações do jornal O Globo)
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O professor da Escola de Relações Internacionais da FGV avalia ainda que o americano não hesitará em sacrificar Bolsonaro se perceber que pode obter ganhos na relação com Lula.
1) A sinalização de Trump de que a conversa com Lula foi “muito boa” é uma vitória para o brasileiro e uma derrota do bolsonarismo?
Sim, no sentido de que abriu a possibilidade de negociações, e era isso que o governo queria. É também uma derrota para o bolsonarismo porque, ao abrir a possibilidade de negociações, dificulta o trabalho de Eduardo Bolsonaro, que tenta criar uma muralha entre os governos Trump e Lula. Agora, o motivo pelo qual isso aconteceu não é necessariamente porque o Brasil conseguiu virar a opinião de Trump, é mais porque o processo decisório no governo Trump é muito bagunçado. Não há disciplina suficiente dentro do governo para manter uma linha só em cada área. Trump é o presidente do vaivém, então precisamos ser cautelosos com a sinalização dele.
2) Como avalia a “química” entre Lula e Trump, depois de meses de tensão?
Trump é, antes de mais nada, um negociador. Foi treinado e se desenvolveu como personalidade pública, desde o início, no setor imobiliário. Negociar duramente é da essência de quem ele é. Portanto, é natural que coloque uma ênfase enorme no laço interpessoal, no olho no olho, na química, e isso é muito parecido com o estilo do Lula, que também é um negociador exímio. A diferença entre eles é o estilo negociador em si. Trump tem um estilo abrasivo, que chega chutando a porta e virando a mesa na cara do oponente, ao passo que Lula é da conciliação.
3) No livro “18 dias”, o senhor se refere a essa mesma “química” ao apontar como Lula fez um encontro com Bush durar mais que o previsto em 2002. Esse personalismo na política externa é uma marca do petista?
O personalismo é a marca registrada tanto de Trump quanto de Lula. O que significa que num processo de conversa bilateral cara a cara entre eles podemos ver uma virada de jogo da qual os dois saiam com um entendimento melhor do que têm hoje. Mas também pode ser uma situação de muito risco para Lula, na qual a química desanda rapidamente. Isso dito, já vimos que personagens que Trump destrata num primeiro momento, como Zelensky, podem acabar virando o jogo. Porque a situação muda: Trump é imprevisível, pouco confiável. O jogo com Trump não é tentar um acordo perene. São sempre movimentos táticos, de momento a momento: chutar a bola para frente e manter o jogo em movimento. Essa é a dinâmica que Lula precisa fazer. Trump é muito inconfiável para qualquer parceiro achar que pode estabelecer um equilíbrio sustentável a longo prazo.
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A Casa Branca e o Planalto conseguiram montar uma conversa em que os presidentes puderam conversar se mantendo distantes do tema que causou inicialmente a imposição de tarifas, que é a situação política e jurídica do bolsonarismo. Como esse tema está na origem do problema, é plausível que volte a aparecer na agenda bilateral nos próximos meses, sobretudo num contexto eleitoral brasileiro. No entanto, é igualmente plausível que Trump esteja disposto a sacrificar Bolsonaro se entender que na relação com o governo Lula há ganhos concretos para os Estados Unidos, seja na área comercial ou diplomática.
5) Na futura conversa presencial, Lula deveria mencionar temas políticos ou evitá-los?
É possível, e muito provável, que Trump traga à tona o processo de Bolsonaro. E para Lula a única resposta possível é dizer, corretamente, que a Corte Suprema brasileira é separada do Executivo e que não há nada que o presidente possa fazer para reverter a decisão. Mas Lula tem que esperar Trump trazer essas questões, não ele mesmo levá-las. O foco de Lula, no entanto, não deveria estar apenas na questão comercial. A agenda financeira é gigantesca, a diplomática também. Brasil e EUA trabalham juntos em muitas instâncias.
6) Trump parece de fato preocupado com a situação de Bolsonaro ou isso é uma cortina de fumaça para maquiar outros interesses?
Trump tem uma preocupação real com o Bolsonaro que é a preocupação com a trajetória da nova direita mundo afora. Essa preocupação não me parece cortina de fumaça, mas também não significa que Trump não tenha outros interesses. De novo: se perceber que nas conversas com Lula está tirando um bom negócio para os Estados Unidos, não hesitará em concretizar essa vitória, mesmo que isso signifique sacrificar Bolsonaro na pessoa física. (Com informações do jornal O Globo)
https://www.osul.com.br/trump-sacrifica-bolsonaro-se-tiver-ganhos-com-lula-diz-professor-da-fundacao-getulio-vargas/
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2025-10-12
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