Saída de Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública expõe a dificuldade do governo de enfrentar a violência e o crime organizado, topo das preocupações do País
Entre o punitivismo raso e a negação ideológica do problema, a segurança pública segue órfã de pensamento estratégico. (Foto: Agência Brasil)
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, anunciou o fim de sua gestão de quase dois anos à frente da pasta. Na carta de demissão que entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alegou razões de caráter pessoal, com a ressalva do que chamou de “limitações políticas, conjunturais e orçamentárias” enfrentadas por ele e sua equipe.
Foi um período marcado por sucessivos desgastes, como a fuga, em 2024, de dois detentos ligados ao Comando Vermelho do presídio federal de Mossoró (RN), que expôs fragilidades no sistema prisional federal; a morte de 122 pessoas em uma operação no Rio de Janeiro, conduzida pelo governo estadual contra supostos integrantes da mesma facção, reacendendo o debate sobre o papel da União na coordenação da segurança; e a tentativa de criar um novo arcabouço legal para a área, por meio da chamada PEC da Segurança e do PL Antifacção, ambos ainda sem perspectiva de avanço no Congresso, em boa medida pelo boicote às propostas de setores do próprio governo.
Lula, o PT e a esquerda merecem muitas das críticas que recebem nessa área, ainda que a segurança pública seja, por definição constitucional, prerrogativa dos Estados. Sem Lewandowski – e caminhando para o terceiro titular da pasta em um único mandato –, o País seguirá para mais uma eleição carregando duas certezas incômodas. A primeira é que o medo passou a integrar a paisagem cotidiana: medo da violência difusa, dos assaltos banais, das balas perdidas e do avanço organizado de facções criminosas que controlam territórios e impõem regras à margem do Estado. A segunda é que, apesar da centralidade desse medo, não há no horizonte um debate político minimamente qualificado capaz de aplacá-lo.
Entre o punitivismo raso e a negação ideológica do problema, a segurança pública segue órfã de pensamento estratégico. Essa dissonância ajuda a explicar por que a violência ocupa o topo das preocupações nacionais. Segundo recente pesquisa da Ipsos, 45% dos brasileiros apontam crime e violência como o principal problema do País, à frente de corrupção (36%) e saúde (34%). O dado revela um mal-estar alimentado pela percepção de que o Estado perdeu capacidade de enfrentar tanto a criminalidade cotidiana quanto o crime organizado, hoje sofisticado e transnacional.
O debate público permanece empobrecido, preso a slogans punitivistas de um lado e discursos genéricos de outro. Um vazio estratégico que se torna ainda mais grave em ano eleitoral. Como este jornal já advertiu nesta página, a segurança será um dos temas estruturais mais decisivos em 2026. Enquanto a esquerda fracassou ao relativizar a violência e transformar o criminoso em “oprimido”, a direita instrumentalizou o medo legítimo dos cidadãos com soluções baseadas na força bruta e na retórica da morte. São dois caminhos distintos que não servem ao Brasil.
O fato é que o País não dispõe de uma política nacional consistente de segurança pública. Falta coordenação federativa, metas claras, indicadores confiáveis e avaliação permanente de resultados. Em seu lugar, especialmente no plano federal, acumulam-se ações reativas e anúncios de ocasião, muitas vezes descolados de evidências sobre o que funciona – e o que fracassa – no enfrentamento da criminalidade.
Nesse contexto, ganhou força o debate sobre o desmembramento do Ministério da Justiça e Segurança Pública, impulsionado pela saída de Lewandowski, historicamente contrário à cisão da pasta. Trata-se de um debate legítimo do ponto de vista administrativo, mas insuficiente do ponto de vista político e estratégico. A criação de uma pasta específica, por si só, não qualificará a visão de Lula nem superará a dificuldade histórica da esquerda em lidar com o tema da segurança pública.
Resta lembrar a Lula e ao PT que enfrentar a violência exige liderança política, coordenação federativa efetiva, fortalecimento das polícias, integração de inteligência, combate ao crime organizado e avaliação rigorosa de políticas públicas. Exige, sobretudo, coragem para romper tabus ideológicos. Se a violência é a maior preocupação nacional, o mínimo que se espera é que ela seja tratada com a prioridade correspondente. O Brasil não precisa de mais retórica, e sim de um empenho nacional à altura do medo real que molda a vida dos brasileiros. (Coluna de opinião do portal Estadão).
https://www.osul.com.br/saida-de-lewandowski-do-ministerio-da-justica-e-seguranca-publica-expoe-a-dificuldade-do-governo-de-enfrentar-a-violencia-e-o-crime-organizado-topo-das-preocupacoes-do-pais/ Saída de Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública expõe a dificuldade do governo de enfrentar a violência e o crime organizado, topo das preocupações do País 2026-01-11
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Lula, o PT e a esquerda merecem muitas das críticas que recebem nessa área, ainda que a segurança pública seja, por definição constitucional, prerrogativa dos Estados. Sem Lewandowski – e caminhando para o terceiro titular da pasta em um único mandato –, o País seguirá para mais uma eleição carregando duas certezas incômodas. A primeira é que o medo passou a integrar a paisagem cotidiana: medo da violência difusa, dos assaltos banais, das balas perdidas e do avanço organizado de facções criminosas que controlam territórios e impõem regras à margem do Estado. A segunda é que, apesar da centralidade desse medo, não há no horizonte um debate político minimamente qualificado capaz de aplacá-lo.
Entre o punitivismo raso e a negação ideológica do problema, a segurança pública segue órfã de pensamento estratégico. Essa dissonância ajuda a explicar por que a violência ocupa o topo das preocupações nacionais. Segundo recente pesquisa da Ipsos, 45% dos brasileiros apontam crime e violência como o principal problema do País, à frente de corrupção (36%) e saúde (34%). O dado revela um mal-estar alimentado pela percepção de que o Estado perdeu capacidade de enfrentar tanto a criminalidade cotidiana quanto o crime organizado, hoje sofisticado e transnacional.
O debate público permanece empobrecido, preso a slogans punitivistas de um lado e discursos genéricos de outro. Um vazio estratégico que se torna ainda mais grave em ano eleitoral. Como este jornal já advertiu nesta página, a segurança será um dos temas estruturais mais decisivos em 2026. Enquanto a esquerda fracassou ao relativizar a violência e transformar o criminoso em “oprimido”, a direita instrumentalizou o medo legítimo dos cidadãos com soluções baseadas na força bruta e na retórica da morte. São dois caminhos distintos que não servem ao Brasil.
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Resta lembrar a Lula e ao PT que enfrentar a violência exige liderança política, coordenação federativa efetiva, fortalecimento das polícias, integração de inteligência, combate ao crime organizado e avaliação rigorosa de políticas públicas. Exige, sobretudo, coragem para romper tabus ideológicos. Se a violência é a maior preocupação nacional, o mínimo que se espera é que ela seja tratada com a prioridade correspondente. O Brasil não precisa de mais retórica, e sim de um empenho nacional à altura do medo real que molda a vida dos brasileiros. (Coluna de opinião do portal Estadão).
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2026-01-11
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