A postura hesitante espelha as divisões internas do PT e suas respectivas visões sobre autoritarismo. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Há pelo menos duas décadas, o Brasil corre o risco de virar uma Venezuela. É o que a direita repete a cada eleição, em contraponto à relação amistosa entre o PT e o regime chavista. Pois o fantasma está novamente à solta. Com a invasão dos Estados Unidos à Venezuela, e a decorrente deposição do ditador Nicolás Maduro, a direita quer amedrontar os petistas. Mas eles dizem que já não acreditam em assombrações.
Integrantes do PT tentam usar a crise venezuelana contra o bolsonarismo, com o discurso da soberania nacional. A estratégia, dizem parlamentares da base do governo, é mostrar que a oposição tem pretensões entreguistas para o Brasil. Contudo, a Venezuela ainda é um assunto incômodo para o partido, porque ressuscita divisões internas sobre o conceito de democracia e, sobretudo, o reconhecimento de uma ditadura no país vizinho.
“Essa coisa de Brasil virar Venezuela nunca pegou. O que vai pegar nas eleições é a bandeira da paz na América do Sul. A direita está atacando a democracia e defendendo uma intervenção aqui”, diz o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do partido na Câmara.
Lindbergh refere-se à montagem compartilhada pela internet pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), no mesmo dia da captura do ditador venezuelano. Nela, o presidente Lula (PT) aparece sendo preso pelo Exército americano.
Em seguida, parlamentares de esquerda acionaram a PGR (Procuradoria-Geral da República) contra Nikolas. Em outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que hoje é o candidato da direita ao Planalto, havia feito outra postagem, dando margem para acusações de entreguismo. Em sua conta no X, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sugeriu, em uma publicação do secretário de Defesa do governo Donald Trump, que os Estados Unidos fizessem uma operação, no Rio de Janeiro, contra o narcotráfico.
Com o avanço das investigações da trama golpista, os apelos do bolsonarismo à política externa tornaram-se constantes. Segundo a Polícia Federal, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), à época ainda exercendo mandato como deputado, pressionou o governo Trump a aplicar sanções contra o Brasil. De acordo com a denúncia da PF, o objetivo era coagir o Judiciário brasileiro durante o processo que acabou por condenar seu pai a 27 anos de prisão. Ao reverter o tarifaço de Trump, o Planalto incorporou o discurso pela soberania.
“A direita vai se enrolar novamente, assim como ocorreu com as tarifas. Eles se iludem achando que têm protagonismo com Trump, mas o presidente americano só está interessado numa política imperialista”, afirma Lindbergh.
Em meio às incertezas sobre o futuro da Venezuela, PT, PSOL e MST fundaram uma frente em solidariedade à população vizinha. Lula e a bancada do partido escreveram notas criticando a intervenção dos EUA.
Em contraste, os governadores de direita, entre os quais o de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comemoraram a ação. Em um vídeo, Tarcísio usou a imagem de Lula abraçado a Maduro para relacionar o episódio com a chance de uma derrota da esquerda nas eleições de outubro. O governador reavivou, assim, as comparações entre o PT e o chavismo, antiga tática resumida numa famosa sentença: o Brasil vai virar uma Venezuela. A frase se apoia na recusa do PT em reconhecer a ditadura daquele país.
Um relatório da ONG Human Rights Watch, de 2017, já denunciava a concentração de poder no Executivo, as violações dos direitos humanos e a censura à mídia. Em 2024, a vitória de Maduro não foi reconhecida por observadores, como o Carter Center, nem pela OEA (Organização dos Estados Americanos). Lula não reconheceu a lisura daquele pleito, mas, naquele ano, disse que a Venezuela não era uma ditadura, mas apenas um “regime desagradável”. Já o PT afirmou que a eleição de Maduro havia sido democrática. O hoje líder do governo Lula no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), divergiu e chamou à época o regime de ditadura.
Reimont afirma que a frente de esquerda não é a favor de Maduro, mas em solidariedade à população local. “Compreendemos que a Venezuela deve resolver os problemas por conta própria”, conta ele, integrante da CNB (Construindo Um Novo Brasil), corrente majoritária da sigla, liderada pelo próprio Lula.
Reimont reconhece que a direita deve despertar, nas eleições, o fantasma da Venezuela, sugerindo que o PT apoia criminosos. Contudo ele diz ter agora elementos de contra-ataque. “A nossa estratégia na eleição precisa estar ligada à comparação, porque a direita tem nada a apresentar. Então, eles usam esse terrorismo. Mas temos frases de efeito agora, do tipo ‘como Deus está acima de tudo e Trump está acima da América Latina?’”. Com informações da Folha de São Paulo.
https://www.osul.com.br/pt-tenta-usar-crise-na-venezuela-contra-a-direita-e-reaviva-divisoes-internas/ PT tenta usar crise na Venezuela contra a direita e reaviva divisões internas 2026-01-11
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PT tenta usar crise na Venezuela contra a direita e reaviva divisões internas
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Há pelo menos duas décadas, o Brasil corre o risco de virar uma Venezuela. É o que a direita repete a cada eleição, em contraponto à relação amistosa entre o PT e o regime chavista. Pois o fantasma está novamente à solta. Com a invasão dos Estados Unidos à Venezuela, e a decorrente deposição do ditador Nicolás Maduro, a direita quer amedrontar os petistas. Mas eles dizem que já não acreditam em assombrações.
Integrantes do PT tentam usar a crise venezuelana contra o bolsonarismo, com o discurso da soberania nacional. A estratégia, dizem parlamentares da base do governo, é mostrar que a oposição tem pretensões entreguistas para o Brasil. Contudo, a Venezuela ainda é um assunto incômodo para o partido, porque ressuscita divisões internas sobre o conceito de democracia e, sobretudo, o reconhecimento de uma ditadura no país vizinho.
“Essa coisa de Brasil virar Venezuela nunca pegou. O que vai pegar nas eleições é a bandeira da paz na América do Sul. A direita está atacando a democracia e defendendo uma intervenção aqui”, diz o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do partido na Câmara.
Lindbergh refere-se à montagem compartilhada pela internet pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), no mesmo dia da captura do ditador venezuelano. Nela, o presidente Lula (PT) aparece sendo preso pelo Exército americano.
Em seguida, parlamentares de esquerda acionaram a PGR (Procuradoria-Geral da República) contra Nikolas. Em outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que hoje é o candidato da direita ao Planalto, havia feito outra postagem, dando margem para acusações de entreguismo. Em sua conta no X, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sugeriu, em uma publicação do secretário de Defesa do governo Donald Trump, que os Estados Unidos fizessem uma operação, no Rio de Janeiro, contra o narcotráfico.
Com o avanço das investigações da trama golpista, os apelos do bolsonarismo à política externa tornaram-se constantes. Segundo a Polícia Federal, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), à época ainda exercendo mandato como deputado, pressionou o governo Trump a aplicar sanções contra o Brasil. De acordo com a denúncia da PF, o objetivo era coagir o Judiciário brasileiro durante o processo que acabou por condenar seu pai a 27 anos de prisão. Ao reverter o tarifaço de Trump, o Planalto incorporou o discurso pela soberania.
“A direita vai se enrolar novamente, assim como ocorreu com as tarifas. Eles se iludem achando que têm protagonismo com Trump, mas o presidente americano só está interessado numa política imperialista”, afirma Lindbergh.
Em meio às incertezas sobre o futuro da Venezuela, PT, PSOL e MST fundaram uma frente em solidariedade à população vizinha. Lula e a bancada do partido escreveram notas criticando a intervenção dos EUA.
Em contraste, os governadores de direita, entre os quais o de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comemoraram a ação. Em um vídeo, Tarcísio usou a imagem de Lula abraçado a Maduro para relacionar o episódio com a chance de uma derrota da esquerda nas eleições de outubro. O governador reavivou, assim, as comparações entre o PT e o chavismo, antiga tática resumida numa famosa sentença: o Brasil vai virar uma Venezuela. A frase se apoia na recusa do PT em reconhecer a ditadura daquele país.
Um relatório da ONG Human Rights Watch, de 2017, já denunciava a concentração de poder no Executivo, as violações dos direitos humanos e a censura à mídia. Em 2024, a vitória de Maduro não foi reconhecida por observadores, como o Carter Center, nem pela OEA (Organização dos Estados Americanos). Lula não reconheceu a lisura daquele pleito, mas, naquele ano, disse que a Venezuela não era uma ditadura, mas apenas um “regime desagradável”. Já o PT afirmou que a eleição de Maduro havia sido democrática. O hoje líder do governo Lula no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), divergiu e chamou à época o regime de ditadura.
Reimont afirma que a frente de esquerda não é a favor de Maduro, mas em solidariedade à população local. “Compreendemos que a Venezuela deve resolver os problemas por conta própria”, conta ele, integrante da CNB (Construindo Um Novo Brasil), corrente majoritária da sigla, liderada pelo próprio Lula.
Reimont reconhece que a direita deve despertar, nas eleições, o fantasma da Venezuela, sugerindo que o PT apoia criminosos. Contudo ele diz ter agora elementos de contra-ataque. “A nossa estratégia na eleição precisa estar ligada à comparação, porque a direita tem nada a apresentar. Então, eles usam esse terrorismo. Mas temos frases de efeito agora, do tipo ‘como Deus está acima de tudo e Trump está acima da América Latina?’”. Com informações da Folha de São Paulo.
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2026-01-11
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