Aliados do presidente afirmam que a estratégia de esperar para dar uma declaração pública também foi proposital. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Ao declarar que a operação Contenção, realizada pelas polícias do Rio e que deixou 121 mortos, foi uma “matança”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis deixar um registro de manifestação sobre o assunto para o futuro, ocasião em que eventuais investigações podem chegar à conclusão de abusos. A ideia do petista, segundo aliados, é não ser responsabilizado politicamente pela omissão. Além disso, apoiadores acham importante demarcar que o governo federal não vê como aceitáveis possíveis violações de direitos humanos, mesmo que os atos de repressão sejam populares.
Aliados próximos do presidente afirmam, reservadamente, que a estratégia de esperar para dar uma declaração pública também foi proposital. O Palácio do Planalto não quis dar corda a uma disputa midiática com a gestão de Cláudio Castro, mas o presidente avaliou ser necessário dar sua visão após os primeiros dias da operação, considerada a mais letal da história do País.
“O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortes, as pessoas podem considerar um sucesso, mas do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa”, afirmou Lula em entrevista a agências internacionais em Belém, cidade que vai sediar a COP30 nas próximas semanas.
O presidente também disse que “houve uma matança” e que “é importante investigar em que condições ocorreu”. A escolha de falar a agências internacionais não foi trivial. Lula quis falar também para o público externo — na imprensa internacional a operação foi retratada majoritariamente de maneira negativa.
Embora a operação traga ganhos de popularidade ao Castro no curto prazo, assessores próximos de Lula fazem um paralelo dessa operação com a que matou 111 detentos no Carandiru. No longo prazo e na História, o governo Fleury ficou marcado pelas execuções.
Um aliado que esteve com o presidente ao longo da terça-feira em Belém diz que a fala de Lula é lastreada na comparação com outras operações de combate ao crime organizado.
O exemplo usado mais por assessores de Lula é o da Operação Freedom, deflagrada pela Polícia civil da Bahia, estado governado pelo PT, na própria terça-feira. A polícia baiana deflagrou a operação com o intuito de desarticular o núcleo armado e financeiro do Comando Vermelho, a mesma facção criminosa que havia sido alvo da ação policial no Rio.
A operação na Bahia prendeu 38 pessoas e resultou na morte de um único suspeito, que usava roupas camufladas e portava um revólver. Foram cumpridos 46 mandados de busca e apreensão, de forma simultânea, na Bahia e no Ceará e houve o bloqueio de 51 contas bancárias supostamente usadas pela organização criminosa.
Na Contenção, 99 pessoas foram detidas, sendo 82 em flagrante e 17 com mandados de prisão. Além disso, foram apreendidos 96 fuzis, 25 pistolas e um revólver.
No Planalto, a avaliação é de que ambas as operações policiais foram realizadas contra a mesma facção e para cumprir mandados judiciais, mas tiveram índices de letalidade muito diferentes. O argumento é que o número de mortos na Operação Contenção precisa ser investigado e que a operação policial na Bahia mostra que é possível combater o crime organizado com respeito ao Estado Democrático de Direito.
Além disso, assessores do presidente lembram que, apesar de Lula não ter se manifestado publicamente sobre o tema nos primeiros dias, ministros como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) e Macaé Evaristo (Direitos Humanos) já haviam feito críticas à operação.
Um movimento de endosso à operação do Rio ou um silêncio mais prolongado sobre o tema, diz um assessor próximo de Lula, poderia ser lido como oportunismo político, ao passo que a defesa de investigações e de ações policiais com o foco em ações de inteligência são bons contrapontos à ação.
Lula disse em Belém que o governo federal já está “tentando (fazer) essa investigação”.
“Estamos tentando, inclusive, ver se é possível os legistas da Polícia Federal participarem do processo de investigação da morte. A decisão do juiz era uma ordem de prisão. Não tinha ordem de matança e houve uma matança. É importante a gente verificar em que condições ela se deu”, ressaltou o presidente.
Apesar disso, o governo de Cláudio Castro dispensou o auxílio de peritos da Polícia Federal para analisar os corpos dos 117 mortos durante a operação Contenção.
Juridicamente, uma investigação federal sobre as mortes só poderia ocorrer caso haja determinação da Justiça, o que pode ocorrer a pedido do Ministério Público ou da Defensoria do Rio. (Com informações do jornal O Globo)
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Ao declarar que a operação Contenção, realizada pelas polícias do Rio e que deixou 121 mortos, foi uma “matança”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quis deixar um registro de manifestação sobre o assunto para o futuro, ocasião em que eventuais investigações podem chegar à conclusão de abusos. A ideia do petista, segundo aliados, é não ser responsabilizado politicamente pela omissão. Além disso, apoiadores acham importante demarcar que o governo federal não vê como aceitáveis possíveis violações de direitos humanos, mesmo que os atos de repressão sejam populares.
Aliados próximos do presidente afirmam, reservadamente, que a estratégia de esperar para dar uma declaração pública também foi proposital. O Palácio do Planalto não quis dar corda a uma disputa midiática com a gestão de Cláudio Castro, mas o presidente avaliou ser necessário dar sua visão após os primeiros dias da operação, considerada a mais letal da história do País.
“O dado concreto é que a operação, do ponto de vista da quantidade de mortes, as pessoas podem considerar um sucesso, mas do ponto de vista da ação do Estado, eu acho que ela foi desastrosa”, afirmou Lula em entrevista a agências internacionais em Belém, cidade que vai sediar a COP30 nas próximas semanas.
O presidente também disse que “houve uma matança” e que “é importante investigar em que condições ocorreu”. A escolha de falar a agências internacionais não foi trivial. Lula quis falar também para o público externo — na imprensa internacional a operação foi retratada majoritariamente de maneira negativa.
Embora a operação traga ganhos de popularidade ao Castro no curto prazo, assessores próximos de Lula fazem um paralelo dessa operação com a que matou 111 detentos no Carandiru. No longo prazo e na História, o governo Fleury ficou marcado pelas execuções.
Um aliado que esteve com o presidente ao longo da terça-feira em Belém diz que a fala de Lula é lastreada na comparação com outras operações de combate ao crime organizado.
O exemplo usado mais por assessores de Lula é o da Operação Freedom, deflagrada pela Polícia civil da Bahia, estado governado pelo PT, na própria terça-feira. A polícia baiana deflagrou a operação com o intuito de desarticular o núcleo armado e financeiro do Comando Vermelho, a mesma facção criminosa que havia sido alvo da ação policial no Rio.
A operação na Bahia prendeu 38 pessoas e resultou na morte de um único suspeito, que usava roupas camufladas e portava um revólver. Foram cumpridos 46 mandados de busca e apreensão, de forma simultânea, na Bahia e no Ceará e houve o bloqueio de 51 contas bancárias supostamente usadas pela organização criminosa.
Na Contenção, 99 pessoas foram detidas, sendo 82 em flagrante e 17 com mandados de prisão. Além disso, foram apreendidos 96 fuzis, 25 pistolas e um revólver.
No Planalto, a avaliação é de que ambas as operações policiais foram realizadas contra a mesma facção e para cumprir mandados judiciais, mas tiveram índices de letalidade muito diferentes. O argumento é que o número de mortos na Operação Contenção precisa ser investigado e que a operação policial na Bahia mostra que é possível combater o crime organizado com respeito ao Estado Democrático de Direito.
Além disso, assessores do presidente lembram que, apesar de Lula não ter se manifestado publicamente sobre o tema nos primeiros dias, ministros como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência) e Macaé Evaristo (Direitos Humanos) já haviam feito críticas à operação.
Um movimento de endosso à operação do Rio ou um silêncio mais prolongado sobre o tema, diz um assessor próximo de Lula, poderia ser lido como oportunismo político, ao passo que a defesa de investigações e de ações policiais com o foco em ações de inteligência são bons contrapontos à ação.
Lula disse em Belém que o governo federal já está “tentando (fazer) essa investigação”.
“Estamos tentando, inclusive, ver se é possível os legistas da Polícia Federal participarem do processo de investigação da morte. A decisão do juiz era uma ordem de prisão. Não tinha ordem de matança e houve uma matança. É importante a gente verificar em que condições ela se deu”, ressaltou o presidente.
Apesar disso, o governo de Cláudio Castro dispensou o auxílio de peritos da Polícia Federal para analisar os corpos dos 117 mortos durante a operação Contenção.
Juridicamente, uma investigação federal sobre as mortes só poderia ocorrer caso haja determinação da Justiça, o que pode ocorrer a pedido do Ministério Público ou da Defensoria do Rio. (Com informações do jornal O Globo)
https://www.osul.com.br/lula-tenta-de-blindar-de-responsabilizacao-politica-ao-chamar-acao-no-rio-de-matanca/
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2025-11-06
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