A noite de quarta-feira (29) consagrou Alcolumbre como fiador de uma maioria capaz de dobrar o Planalto. (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)
Davi Alcolumbre (União-AP) é a prova viva de que, em Brasília, poder não necessariamente anda ao lado de grandeza. Sem obra pública relevante, pensamento político identificável ou traço nítido de liderança nacional, o presidente do Senado tornou-se, por combinação de astúcia, faro político e domínio das engrenagens miúdas do Congresso, um dos homens mais poderosos do País. Foi esse representante do mais baixo clero quem impôs ao veterano Luiz Inácio Lula da Silva uma derrota histórica ao liderar a rejeição à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Alcolumbre é a expressão acabada da política pequena que cresceu à sombra da fraqueza dos governos. A pergunta inevitável é por que ele dobrou a aposta contra o governo. A primeira explicação está no ressentimento. Lula recusou o nome preferido por Alcolumbre para a vaga, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Ao escolher Messias, comprou uma briga que julgou administrável. Não era. O chefe do Senado retardou, esfriou e mostrou que o Planalto pagaria caro por ignorá-lo.
Mas seria ingênuo reduzir o episódio a uma pirraça. Há versões para todos os gostos. Uma delas, um tanto rocambolesca, diz que Messias estaria inclinado a apoiar a ala do STF empenhada em esclarecer o caso do Banco Master, razão pela qual teria sido barrado por uma convergência entre a cúpula do Senado e setores do Supremo supostamente interessados em jogar água na fervura do escândalo – que resvala em senadores (a começar pelo próprio Alcolumbre) e alguns ministros do STF. Vai saber. O que importa, no entanto, é o sentido do gesto: ao entregar a cabeça do indicado de Lula, o Senado avisou que sua paciência se esgotara.
Para parte do Senado, barrar Messias foi uma forma de enviar recado definitivo ao Supremo; para setores da própria Corte, uma chance de empurrar a tormenta para depois da eleição. Em vez de avançar sobre ministros do STF, a Casa demonstrou força no terreno em que a Constituição lhe confere poder de fato.
Há, nesse cálculo, certo cinismo institucional. O Senado deveria exercer sua prerrogativa com critérios republicanos. Como já se disse neste espaço, Messias não caiu porque a Casa recuperou sua vocação de guardiã da República nem porque a sabatina escancarou seu evidente despreparo para o posto. Caiu porque se tornou peça útil numa disputa entre Lula, Alcolumbre, oposição e Judiciário. O resultado pode até ter impedido uma escolha ruim. Ainda assim, o método rebaixou o Senado.
Também pesou a leitura eleitoral. Alcolumbre já calcula a sucessão presidencial e a eleição interna do Senado, em 2027. Ao derrotar Lula, Alcolumbre fala à oposição, ao Centrão e a todos os que veem no governo uma força em declínio e cacifa-se como fiador de uma maioria capaz de sobreviver ao lulismo. Não é de seu feitio romper de frente com governos. Sempre prestou serviços a Lula, mas também sabe fazer malcriações calculadas.
Alcolumbre não liderou uma rebelião ideológica nem encarnou uma causa institucional. Fez política como sempre: misturando interesses pessoais, cálculo corporativo, barganha, ressentimento e senso oportunista. Se Lula ainda dispõe de capacidade de sobrevivência, seu governo deu sinais de exaustão. Um presidente forte dificilmente teria permitido que sua indicação ao Supremo sangrasse por meses até morrer em plenário.
Não há motivo para lamentar Messias. Sua indicação carregava os vícios de Lula: personalismo, recompensa à fidelidade e tentativa de moldar o Supremo segundo conveniências palacianas e cálculo eleitoral. Mas tampouco há razão para celebrar Alcolumbre como restaurador do Senado. Ele é sintoma de uma deformação. (Editorial publicado em O Estado de S. Paulo)
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Egresso do baixíssimo clero, o presidente do Senado acumula enorme poder
A noite de quarta-feira (29) consagrou Alcolumbre como fiador de uma maioria capaz de dobrar o Planalto. (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)
Davi Alcolumbre (União-AP) é a prova viva de que, em Brasília, poder não necessariamente anda ao lado de grandeza. Sem obra pública relevante, pensamento político identificável ou traço nítido de liderança nacional, o presidente do Senado tornou-se, por combinação de astúcia, faro político e domínio das engrenagens miúdas do Congresso, um dos homens mais poderosos do País. Foi esse representante do mais baixo clero quem impôs ao veterano Luiz Inácio Lula da Silva uma derrota histórica ao liderar a rejeição à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Alcolumbre é a expressão acabada da política pequena que cresceu à sombra da fraqueza dos governos. A pergunta inevitável é por que ele dobrou a aposta contra o governo. A primeira explicação está no ressentimento. Lula recusou o nome preferido por Alcolumbre para a vaga, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Ao escolher Messias, comprou uma briga que julgou administrável. Não era. O chefe do Senado retardou, esfriou e mostrou que o Planalto pagaria caro por ignorá-lo.
Mas seria ingênuo reduzir o episódio a uma pirraça. Há versões para todos os gostos. Uma delas, um tanto rocambolesca, diz que Messias estaria inclinado a apoiar a ala do STF empenhada em esclarecer o caso do Banco Master, razão pela qual teria sido barrado por uma convergência entre a cúpula do Senado e setores do Supremo supostamente interessados em jogar água na fervura do escândalo – que resvala em senadores (a começar pelo próprio Alcolumbre) e alguns ministros do STF. Vai saber. O que importa, no entanto, é o sentido do gesto: ao entregar a cabeça do indicado de Lula, o Senado avisou que sua paciência se esgotara.
Para parte do Senado, barrar Messias foi uma forma de enviar recado definitivo ao Supremo; para setores da própria Corte, uma chance de empurrar a tormenta para depois da eleição. Em vez de avançar sobre ministros do STF, a Casa demonstrou força no terreno em que a Constituição lhe confere poder de fato.
Há, nesse cálculo, certo cinismo institucional. O Senado deveria exercer sua prerrogativa com critérios republicanos. Como já se disse neste espaço, Messias não caiu porque a Casa recuperou sua vocação de guardiã da República nem porque a sabatina escancarou seu evidente despreparo para o posto. Caiu porque se tornou peça útil numa disputa entre Lula, Alcolumbre, oposição e Judiciário. O resultado pode até ter impedido uma escolha ruim. Ainda assim, o método rebaixou o Senado.
Também pesou a leitura eleitoral. Alcolumbre já calcula a sucessão presidencial e a eleição interna do Senado, em 2027. Ao derrotar Lula, Alcolumbre fala à oposição, ao Centrão e a todos os que veem no governo uma força em declínio e cacifa-se como fiador de uma maioria capaz de sobreviver ao lulismo. Não é de seu feitio romper de frente com governos. Sempre prestou serviços a Lula, mas também sabe fazer malcriações calculadas.
Alcolumbre não liderou uma rebelião ideológica nem encarnou uma causa institucional. Fez política como sempre: misturando interesses pessoais, cálculo corporativo, barganha, ressentimento e senso oportunista. Se Lula ainda dispõe de capacidade de sobrevivência, seu governo deu sinais de exaustão. Um presidente forte dificilmente teria permitido que sua indicação ao Supremo sangrasse por meses até morrer em plenário.
Não há motivo para lamentar Messias. Sua indicação carregava os vícios de Lula: personalismo, recompensa à fidelidade e tentativa de moldar o Supremo segundo conveniências palacianas e cálculo eleitoral. Mas tampouco há razão para celebrar Alcolumbre como restaurador do Senado. Ele é sintoma de uma deformação. (Editorial publicado em O Estado de S. Paulo)
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