Diálogos do telefone celular de Daniel Vorcaro com dois funcionários do Banco Central mostram que eles anteciparam perguntas que seriam feitas em reuniões na autarquia
O ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza. (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)
Os diálogos do telefone celular de Daniel Vorcaro com dois funcionários do Banco Central mostram que eles anteciparam perguntas que seriam feitas em reuniões na autarquia, vazaram detalhes do monitoramento das transações financeiras do Banco Master e opinaram sobre documentos que seriam apresentados ao BC.
Paulo Sérgio Neves de Souza (ex-diretor de Fiscalização) e Belline Santana (ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária) foram alvo de busca e apreensão da PF na terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na semana passada. Eles foram afastados dos cargos em janeiro pelo BC, que abriu investigação interna para apurar o caso Master.
“Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração. Além disso, a comunicação entre cliente e advogado é protegida por prerrogativa legal e constitui garantia essencial do direito de defesa”, diz a nota.
Em uma das conversas, publicou o jornal O Estado de S. Paulo, Neves de Souza antecipou a Vorcaro os temas que seriam abordados em uma reunião na autarquia. A mensagem é de 5 de fevereiro de 2024. Na época, ele já tinha deixado o posto de diretor e era chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária, subordinado à mesma diretoria.
“Devem perguntar sobre seu relacionamento com (a gestora) Reag. Disse que eles tinham negócios com a família Piana (fundadores do Will Bank, posteriormente vendido ao Master) e buscam no processo de liquidação ordinária reaver algum dinheiro. Mas devem querer saber sobre seu relacionamento com (João Carlos) Mansur (fundador da Reag). Era isso, abração e boa sorte.”
Em outra conversa, Neves de Souza envia a Vorcaro informações sigilosas sobre um alerta que o BC havia feito em relação à movimentação financeira do Master. Para a PF, esses dados foram antecipados com o objetivo de permitir que o banqueiro construísse uma defesa sobre isso. “Meu caro, teve uma saída de recursos de (R$) 488,8 mm (milhões) do Fundo Reag Growth 95 e uma entrada de (R$) 545,5 mm (milhões) da Master Holding Financeira. Favor verificar e me ligar quando puder pois essa movimentação caiu no filtro da área de monitoramento. Abs”, escreveu a Vorcaro, em 17 de fevereiro de 2025.
Sinal de alerta
Nesse mês, o Master já havia recebido um “cartão amarelo” do Banco Central, se comprometendo a adotar uma série de medidas para melhorar o seu balanço e sua governança corporativa até maio daquele ano.
Neves de Souza também seria o responsável por escrever a ata da reunião entre Vorcaro e o BC, no dia 7 de novembro, que acabou sendo usada pela defesa do banqueiro para livrá-lo da primeira prisão. O ex-dono do Master usou o documento como prova à Justiça de que não queria fugir do País, porque teria informado o BC da viagem.
A decisão do servidor de escrever a ata foi considerada atípica pelo diretor Ailton de Aquino, que, a partir daí, passou a desconfiar do subordinado, segundo apurou o Estadão.
Quanto a Belinne Santana, em uma das conversas com o ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária do BC, Vorcaro enviou a ele um documento do Master que seria apresentado ao BC em outubro de 2025, quando a autarquia estava próxima de decretar a liquidação do banco – anunciada no mês seguinte.
Belline respondeu por mensagem de WhatsApp, em 2 de outubro de 2025: “Com relação ao documento, considero que ficou bom. Fico apenas com uma dúvida da necessidade adequação da expressão, especialmente da Difis (diretoria de Fiscalização). Penso que deixar mais aberta, dessa autarquia etc pode ajudar a evitar ruídos desnecessários”.
A PF suspeita que os servidores teriam recebido pagamentos de propina. Eles estão afastados, mas continuam recebendo salários. Segundo o Portal da Transparência, Belline tem remuneração bruta de R$ 45.947. Neves de Souza possui vencimento bruto de R$ 38.929. A Controladoria-Geral da União (CGU) recebeu nesta semana o processo concluído pelo BC, e vai iniciar a análise que pode levá-los à expulsão do serviço público.
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O ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza. (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)
Os diálogos do telefone celular de Daniel Vorcaro com dois funcionários do Banco Central mostram que eles anteciparam perguntas que seriam feitas em reuniões na autarquia, vazaram detalhes do monitoramento das transações financeiras do Banco Master e opinaram sobre documentos que seriam apresentados ao BC.
Paulo Sérgio Neves de Souza (ex-diretor de Fiscalização) e Belline Santana (ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária) foram alvo de busca e apreensão da PF na terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na semana passada. Eles foram afastados dos cargos em janeiro pelo BC, que abriu investigação interna para apurar o caso Master.
“Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração. Além disso, a comunicação entre cliente e advogado é protegida por prerrogativa legal e constitui garantia essencial do direito de defesa”, diz a nota.
Em uma das conversas, publicou o jornal O Estado de S. Paulo, Neves de Souza antecipou a Vorcaro os temas que seriam abordados em uma reunião na autarquia. A mensagem é de 5 de fevereiro de 2024. Na época, ele já tinha deixado o posto de diretor e era chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária, subordinado à mesma diretoria.
“Devem perguntar sobre seu relacionamento com (a gestora) Reag. Disse que eles tinham negócios com a família Piana (fundadores do Will Bank, posteriormente vendido ao Master) e buscam no processo de liquidação ordinária reaver algum dinheiro. Mas devem querer saber sobre seu relacionamento com (João Carlos) Mansur (fundador da Reag). Era isso, abração e boa sorte.”
Em outra conversa, Neves de Souza envia a Vorcaro informações sigilosas sobre um alerta que o BC havia feito em relação à movimentação financeira do Master. Para a PF, esses dados foram antecipados com o objetivo de permitir que o banqueiro construísse uma defesa sobre isso. “Meu caro, teve uma saída de recursos de (R$) 488,8 mm (milhões) do Fundo Reag Growth 95 e uma entrada de (R$) 545,5 mm (milhões) da Master Holding Financeira. Favor verificar e me ligar quando puder pois essa movimentação caiu no filtro da área de monitoramento. Abs”, escreveu a Vorcaro, em 17 de fevereiro de 2025.
Sinal de alerta
Nesse mês, o Master já havia recebido um “cartão amarelo” do Banco Central, se comprometendo a adotar uma série de medidas para melhorar o seu balanço e sua governança corporativa até maio daquele ano.
Neves de Souza também seria o responsável por escrever a ata da reunião entre Vorcaro e o BC, no dia 7 de novembro, que acabou sendo usada pela defesa do banqueiro para livrá-lo da primeira prisão. O ex-dono do Master usou o documento como prova à Justiça de que não queria fugir do País, porque teria informado o BC da viagem.
A decisão do servidor de escrever a ata foi considerada atípica pelo diretor Ailton de Aquino, que, a partir daí, passou a desconfiar do subordinado, segundo apurou o Estadão.
Quanto a Belinne Santana, em uma das conversas com o ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária do BC, Vorcaro enviou a ele um documento do Master que seria apresentado ao BC em outubro de 2025, quando a autarquia estava próxima de decretar a liquidação do banco – anunciada no mês seguinte.
Belline respondeu por mensagem de WhatsApp, em 2 de outubro de 2025: “Com relação ao documento, considero que ficou bom. Fico apenas com uma dúvida da necessidade adequação da expressão, especialmente da Difis (diretoria de Fiscalização). Penso que deixar mais aberta, dessa autarquia etc pode ajudar a evitar ruídos desnecessários”.
A PF suspeita que os servidores teriam recebido pagamentos de propina. Eles estão afastados, mas continuam recebendo salários. Segundo o Portal da Transparência, Belline tem remuneração bruta de R$ 45.947. Neves de Souza possui vencimento bruto de R$ 38.929. A Controladoria-Geral da União (CGU) recebeu nesta semana o processo concluído pelo BC, e vai iniciar a análise que pode levá-los à expulsão do serviço público.
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