Banco Master: Espiões contratados por Daniel Vorcaro já sabiam desde 23 de julho do ano passado que investigadores estavam muito perto de fechar o quebra-cabeça de fraudes
Procurada nesta quinta (9) e sexta-feira (10), a defesa de Vorcaro não se manifestou. Com informações da Folha de S. Paulo. (Foto: Reprodução)
Espiões contratados por Daniel Vorcaro já sabiam desde 23 de julho do ano passado que investigadores estavam muito perto de fechar o quebra-cabeça de fraudes que envolveram a tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília).
Naquele dia, uma ação de hackers conseguiu acessar toda a documentação do caso, que estava no computador do procurador Gabriel Pimenta, então responsável pela investigação criminal aberta pelo MPF (Ministério Público Federal) contra o dono do Master.
Só Pimenta tinha acesso aos arquivos do processo que foram parar no dia seguinte no celular do ex-banqueiro.
O acesso ilegal foi descoberto pelo procurador poucos dias após uma varredura nos sistemas pela área de tecnologia do MPF, mas o esquema de espionagem não parou por aí.
O vazamento da operação deflagrou um contra-ataque do time de Vorcaro, segundo relatos feitos à Folha, numa sucessão de eventos comparada por investigadores a um enredo de filme policial. A jogada final de Vorcaro na tentativa de sair ileso seria a fuga do país.
No final da tarde, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master. Para investigadores, o lance não passou de um simulacro para facilitar a fuga de Vorcaro.
Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, Vorcaro se reuniu, por videoconferência, com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, com o então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e o seu adjunto, Paulo Sérgio de Souza. Os dois últimos foram afastados do banco e são investigados por prestar suposta consultoria informal ao ex-banqueiro.
Na reunião, o dono do Master falou das iniciativas que estariam em curso em busca de uma solução de mercado que evitasse a liquidação do banco. O relato apresentado incluía a hipótese de venda da instituição a potenciais investidores estrangeiros. Ele chegou a informar que viajaria a Dubai para avançar nas tratativas.
A fala acendeu a desconfiança no BC do risco de fuga, reforçada pelo fato de que o ex-banqueiro tinha pedido para antecipar para aquela segunda-feira um encontro que estava marcado só para o fim daquela semana.
Enquanto as conversas com o BC aconteciam, a PF monitorava os passos de Vorcaro. Os policiais identificaram pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro sempre negou a tentativa de fuga, alegando que ele estava embarcando para Dubai para contatos com compradores.
Integrantes da corporação avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria que ele tentava fugir do país e que foi abastecido por informantes, como mostraram depois mensagens retiradas do celular trocadas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”.
Identificado pela PF como operador central de um grupo chamado “A Turma”, ele coordenava atividades voltadas à obtenção de informações e monitoramento de pessoas e uso de violência.
A estratégia de Vorcaro não deu certo. Ele foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos na noite do dia 17. O colegiado do BC já tinha aprovado a liquidação do Master, quase na mesma hora em que o juiz assinou a prisão.
O anúncio só foi feito no dia seguinte (18) depois que o liquidante Eduardo Félix Bianchini entrou no prédio do Master em São Paulo. O BC concluiu que o conglomerado enfrentava uma crise crônica de liquidez, que evoluiu para uma crise aguda e insustentável:
“As estratégias de negócios inadequadas, acompanhadas de graves irregularidades e ilícitos (incluindo cessão de créditos inexistentes e descumprimento reiterado de normas regulatórias), aliadas à composição de ativos de baixa liquidez e à frustração de soluções de mercado, justificaram a adoção imediata de medidas saneadoras”, justificou o BC em relatório ao TCU (Tribunal de Contas da União).
Funcionários antigos do BC contaram à reportagem que nunca tinham visto tanta pressão sobre o órgão. Em depoimento à CPI do crime organizado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, relatou um episódio às vésperas da decisão de veto à operação com o BRB, em setembro, que retrata a situação:
“Na semana da rejeição da compra do BRB, eu me lembro de fazer o caminho da minha residência até o BC e não havia um ponto de ônibus em que não tivesse a foto de um diretor do BC [Renato Gomes] acusado por rejeitar a aquisição, [dizendo] que ele estava fazendo um trabalho político por estar rejeitando”, contou.
Imagens com a foto do então diretor Renato Gomes, responsável pela área que analisou e recomendou o veto à operação, foram espalhadas em painéis luminosos gerenciados pelo Metrópoles em Brasília, apontando ele como responsável por dificultar o negócio. O ex-senador Luiz Estevão disse recentemente à Folha que os painéis exibem, além de propagandas, reportagens jornalísticas.
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Espiões contratados por Daniel Vorcaro já sabiam desde 23 de julho do ano passado que investigadores estavam muito perto de fechar o quebra-cabeça de fraudes que envolveram a tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília).
Naquele dia, uma ação de hackers conseguiu acessar toda a documentação do caso, que estava no computador do procurador Gabriel Pimenta, então responsável pela investigação criminal aberta pelo MPF (Ministério Público Federal) contra o dono do Master.
Só Pimenta tinha acesso aos arquivos do processo que foram parar no dia seguinte no celular do ex-banqueiro.
O acesso ilegal foi descoberto pelo procurador poucos dias após uma varredura nos sistemas pela área de tecnologia do MPF, mas o esquema de espionagem não parou por aí.
O vazamento da operação deflagrou um contra-ataque do time de Vorcaro, segundo relatos feitos à Folha, numa sucessão de eventos comparada por investigadores a um enredo de filme policial. A jogada final de Vorcaro na tentativa de sair ileso seria a fuga do país.
No final da tarde, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master. Para investigadores, o lance não passou de um simulacro para facilitar a fuga de Vorcaro.
Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, Vorcaro se reuniu, por videoconferência, com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, com o então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e o seu adjunto, Paulo Sérgio de Souza. Os dois últimos foram afastados do banco e são investigados por prestar suposta consultoria informal ao ex-banqueiro.
Na reunião, o dono do Master falou das iniciativas que estariam em curso em busca de uma solução de mercado que evitasse a liquidação do banco. O relato apresentado incluía a hipótese de venda da instituição a potenciais investidores estrangeiros. Ele chegou a informar que viajaria a Dubai para avançar nas tratativas.
A fala acendeu a desconfiança no BC do risco de fuga, reforçada pelo fato de que o ex-banqueiro tinha pedido para antecipar para aquela segunda-feira um encontro que estava marcado só para o fim daquela semana.
Enquanto as conversas com o BC aconteciam, a PF monitorava os passos de Vorcaro. Os policiais identificaram pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro sempre negou a tentativa de fuga, alegando que ele estava embarcando para Dubai para contatos com compradores.
Integrantes da corporação avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria que ele tentava fugir do país e que foi abastecido por informantes, como mostraram depois mensagens retiradas do celular trocadas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”.
Identificado pela PF como operador central de um grupo chamado “A Turma”, ele coordenava atividades voltadas à obtenção de informações e monitoramento de pessoas e uso de violência.
A estratégia de Vorcaro não deu certo. Ele foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos na noite do dia 17. O colegiado do BC já tinha aprovado a liquidação do Master, quase na mesma hora em que o juiz assinou a prisão.
O anúncio só foi feito no dia seguinte (18) depois que o liquidante Eduardo Félix Bianchini entrou no prédio do Master em São Paulo. O BC concluiu que o conglomerado enfrentava uma crise crônica de liquidez, que evoluiu para uma crise aguda e insustentável:
“As estratégias de negócios inadequadas, acompanhadas de graves irregularidades e ilícitos (incluindo cessão de créditos inexistentes e descumprimento reiterado de normas regulatórias), aliadas à composição de ativos de baixa liquidez e à frustração de soluções de mercado, justificaram a adoção imediata de medidas saneadoras”, justificou o BC em relatório ao TCU (Tribunal de Contas da União).
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“Na semana da rejeição da compra do BRB, eu me lembro de fazer o caminho da minha residência até o BC e não havia um ponto de ônibus em que não tivesse a foto de um diretor do BC [Renato Gomes] acusado por rejeitar a aquisição, [dizendo] que ele estava fazendo um trabalho político por estar rejeitando”, contou.
Imagens com a foto do então diretor Renato Gomes, responsável pela área que analisou e recomendou o veto à operação, foram espalhadas em painéis luminosos gerenciados pelo Metrópoles em Brasília, apontando ele como responsável por dificultar o negócio. O ex-senador Luiz Estevão disse recentemente à Folha que os painéis exibem, além de propagandas, reportagens jornalísticas.
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