Apesar de sempre despontarem com força, ex-governadores não conseguiram conquistar a Presidência durante a Nova República, com exceção de Fernando Collor
Kassab postou foto com Eduardo Leite, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr, o trio de presidenciáveis do PSD. (Foto: Reprodução/X)
Encorpado com a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, o movimento do PSD de construir uma alternativa na disputa presidencial deste ano encontra como obstáculo o histórico das eleições brasileiras, nas quais os polos que representavam a polarização marcaram presença no segundo turno. Além disso, ex-governadores não conseguiram conquistar a Presidência durante a Nova República, com exceção de Fernando Collor
Na terça-feira (27), o partido comandado por Gilberto Kassab surpreendeu ao anunciar a chegada de Caiado, que apareceu em vídeo ao lado de outros dois governadores da sigla cotados como presidenciáveis: o do Paraná, Ratinho Júnior, e o do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Ainda há suspeitas de que o PSD possa desistir do projeto e ficar neutro na eleição pelo Planalto, mas o discurso oficial é de que um dos três será candidato à Presidência, com o martelo a ser batido até o meio de abril.
Até hoje, nas eleições deste século, o terceiro colocado que chegou mais perto do segundo foi o ex-governador do Rio Anthony Garotinho, que recebeu 17,9% e ficou a 5,3 pontos do tucano José Serra em 2002. Marina Silva, em 2014, recebeu um percentual maior de votos, 21,3%, mas isso a deixou a 12,2 pontos de distância em relação a Aécio Neves.
A eleição que levou Jair Bolsonaro à Presidência, em 2018, é a que carrega maiores reservas na comparação com as demais. Isso porque, em tese, era Alckmin – ainda no PSDB – quem representaria o principal foco de oposição ao PT. Já o então deputado federal radicalizado do baixo clero seria a terceira via.
Na prática, contudo, Bolsonaro havia se consolidado como o principal candidato desde muito antes da campanha, deslocando o antipetismo para a extrema direita e encerrando a histórica dicotomia PT-PSDB. Assim, nomes como Ciro Gomes e Alckmin viraram os desafiantes da polarização.
Esperança
Alguns dados de pesquisas recentes alimentam os planos de quem acredita no projeto de enfrentar a polarização, seja para de fato chegar ao segundo turno ou para aumentar o poder partidário depois de uma derrota com bom desempenho. No levantamento Genial/Quaest de novembro do ano passado, 24% afirmaram preferir um presidente que não seja ligado a Lula (PT) ou a Jair Bolsonaro (PL). O número indica o potencial de uma alternativa, mas até agora o petista e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) lideram as intenções de voto.
Todos os governadores considerados para a empreitada estão à direita e, com exceção de Eduardo Leite, declaram diferentes tipos de apoio a Jair Bolsonaro. Ratinho e Caiado, assim como o paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o mineiro Romeu Zema (Novo), fazem acenos à base bolsonarista a todo momento. O último partiu do paranaense, que disse que daria um indulto ao ex-presidente e a condenados pelo 8 de janeiro.
“O espectro ideológico ganhou força à direita, e Lula é hegemônico do outro lado, o que esvazia a eleição presidencial de alternativas à esquerda. Isso cria para o segundo turno a ideia de que “a divisão faz a força”, já que a margem para a esquerda crescer depois do primeiro turno é menor”, avalia o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, fundador do Ipespe.
Em 2022, opções de terceira força, Simone Tebet e Ciro Gomes somaram juntos meros 7,2%, o menor percentual obtido pelos demais postulantes em uma eleição brasileira. Salvo pequenos exemplos, a centro-direita capitulou e desistiu de se diferenciar de Bolsonaro naquele momento, o que faz a nova costura de Kassab ser lida por entusiastas como o maior gesto de reorganização desse campo político desde 2018.
“Discordo de chamar de terceira via, terceira força. Esse movimento de agora parte de quem foi a primeira força até 2002 (com o PSDB), depois virou segunda força e agora tenta se reorganizar de forma estratégica, algo que não aconteceu em 2022”, diz Lavareda.
Poder dos governos
Outro empecilho à luz da História é a dificuldade que governadores enfrentam para vencer o jogo nacional. Apesar de sempre despontarem com força, desde a eleição de Fernando Collor, em 1989, nenhum ex-governador se elegeu presidente na Nova República.
Nos últimos anos, entretanto, os governadores têm se destacado por superlativos índices de aprovação e tentam, juntos, criar um bloco sólido de oposição a Lula. Há diferentes argumentos para os bons desempenhos, e um deles é fiscal. Os estados retomaram a capacidade de investimento depois de anos de contenção. Parte disso vem de incentivos que os Executivos locais tiveram, como perdões a dívidas por parte da União. O cardápio de entregas, segundo interlocutores, é o principal ativo deles na comparação com Flávio. (As informações são de O Globo)
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