A competição eleitoral no Brasil é intensa. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Não é novidade que o sistema partidário brasileiro se caracteriza por um elevado número de legendas e pela alta mobilidade de parlamentares entre elas. As estimativas mais recentes confirmam esse quadro: neste ano, ao menos 115 deputados federais, ou 22% da Câmara dos Deputados, mudaram de partido. É possível que esse número chegue a 30%, aproximando-se dos 34% de deputados federais que deixaram a legenda pela qual foram eleitos no ciclo encerrado em 2022. Diferentes fatores explicam esse desapego dos parlamentares às suas legendas.
Tão importantes quanto esses fatores são seus efeitos. Um sistema partidário com representantes volúveis e legendas amorfas contribui para ampliar o fosso entre as orientações políticas dos brasileiros e as opções eleitorais que lhes são oferecidas. Ao mesmo tempo, esse sistema interdita o debate e a seleção organizada de projetos para o futuro do País.
A competição eleitoral no Brasil é intensa. Como mostrou o cientista político Carlos Pereira em recente coluna no Estadão, em 16 eleições para a Câmara dos Deputados entre 1962 e 2022, a taxa média de reeleição foi de apenas 63% – nas duas eleições mais recentes, 2018 e 2022, esse número foi de 47% e 55%, respectivamente. Na comparação com os Estados Unidos, onde a taxa de reeleição no mesmo período alcançou cerca de 93%, o nível da competição eleitoral brasileira mostra-se ainda mais claro.
Daí que, para aumentar suas chances de sobrevivência eleitoral, os parlamentares brasileiros precisam decidir estrategicamente por qual legenda disputar a reeleição. É esse cálculo, diz Pereira, que explica o volume expressivo de trocas durante as janelas partidárias. Sua conclusão é de que a volatilidade partidária no Brasil “revela menos uma crise de convicção e mais uma lógica de sobrevivência” (ver No Brasil, trocar de partido não é desvio, é estratégia de sobrevivência eleitoral, 8/4/2026).
Essa lógica expõe a fragilidade do sistema partidário e dos partidos brasileiros. Como se lê em artigo dos cientistas políticos Adrián Albala e Vinícius Tejadas publicado na Folha de S.Paulo, 78% das mudanças de partido entre 1999 a 2022 tiveram como origem legendas à direita do espectro político. À esquerda, com 15,8% das trocas, o embaraço é outro: 75,7% delas tiveram como destino partidos classificados como de direita. Esses dados apontam tanto para a indistinção de muitas das legendas entre si quanto para a indiferença ideológica de parte dos nossos representantes políticos.
Nada disso surpreende. O problema é que a indiferença ideológica e a debilidade programática da maioria dos partidos impedem a realização de sua tarefa de identificar, defender e conciliar as diferentes orientações políticas presentes na sociedade brasileira. Impedem, em suma, que os partidos traduzam todo o pluralismo da nossa sociedade em conflito político organizado.
Esse é um fator que alimenta a polarização política atual. Afinal, a população não é composta por 50% de bolsonaristas e 50% de petistas; eles são, respectivamente, cerca de 13% e 16% apenas, conforme pesquisa do ConnectLab, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP). Ainda assim, nosso sistema partidário não se preocupa em representar e oferecer alternativas condizentes com a diversidade de visões políticas dos brasileiros. Ao que tudo indica, na eleição presidencial deste ano, não teremos um candidato identificado plenamente com ideias de centro.
Além disso, o desinteresse e a debilidade ideológica e programática dos partidos brasileiros comprometem sua aptidão de formular e discutir visões de futuro para o País; visões que são urgentes neste momento de incertezas existenciais, geopolíticas e de transformações tecnológicas imparáveis. Sem articulação coletiva, sem deliberação plural e organizada, o destino político do País tende a depender novamente do carisma e da capacidade de mobilização do líder político da vez – uma solução de que a maior parte dos brasileiros já se cansou, mas nossos partidos ainda não. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)
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A população não é composta por 50% de bolsonaristas e 50% de petistas; eles são, respectivamente, cerca de 13% e 16%
A competição eleitoral no Brasil é intensa.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
A competição eleitoral no Brasil é intensa. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Não é novidade que o sistema partidário brasileiro se caracteriza por um elevado número de legendas e pela alta mobilidade de parlamentares entre elas. As estimativas mais recentes confirmam esse quadro: neste ano, ao menos 115 deputados federais, ou 22% da Câmara dos Deputados, mudaram de partido. É possível que esse número chegue a 30%, aproximando-se dos 34% de deputados federais que deixaram a legenda pela qual foram eleitos no ciclo encerrado em 2022. Diferentes fatores explicam esse desapego dos parlamentares às suas legendas.
Tão importantes quanto esses fatores são seus efeitos. Um sistema partidário com representantes volúveis e legendas amorfas contribui para ampliar o fosso entre as orientações políticas dos brasileiros e as opções eleitorais que lhes são oferecidas. Ao mesmo tempo, esse sistema interdita o debate e a seleção organizada de projetos para o futuro do País.
A competição eleitoral no Brasil é intensa. Como mostrou o cientista político Carlos Pereira em recente coluna no Estadão, em 16 eleições para a Câmara dos Deputados entre 1962 e 2022, a taxa média de reeleição foi de apenas 63% – nas duas eleições mais recentes, 2018 e 2022, esse número foi de 47% e 55%, respectivamente. Na comparação com os Estados Unidos, onde a taxa de reeleição no mesmo período alcançou cerca de 93%, o nível da competição eleitoral brasileira mostra-se ainda mais claro.
Daí que, para aumentar suas chances de sobrevivência eleitoral, os parlamentares brasileiros precisam decidir estrategicamente por qual legenda disputar a reeleição. É esse cálculo, diz Pereira, que explica o volume expressivo de trocas durante as janelas partidárias. Sua conclusão é de que a volatilidade partidária no Brasil “revela menos uma crise de convicção e mais uma lógica de sobrevivência” (ver No Brasil, trocar de partido não é desvio, é estratégia de sobrevivência eleitoral, 8/4/2026).
Essa lógica expõe a fragilidade do sistema partidário e dos partidos brasileiros. Como se lê em artigo dos cientistas políticos Adrián Albala e Vinícius Tejadas publicado na Folha de S.Paulo, 78% das mudanças de partido entre 1999 a 2022 tiveram como origem legendas à direita do espectro político. À esquerda, com 15,8% das trocas, o embaraço é outro: 75,7% delas tiveram como destino partidos classificados como de direita. Esses dados apontam tanto para a indistinção de muitas das legendas entre si quanto para a indiferença ideológica de parte dos nossos representantes políticos.
Nada disso surpreende. O problema é que a indiferença ideológica e a debilidade programática da maioria dos partidos impedem a realização de sua tarefa de identificar, defender e conciliar as diferentes orientações políticas presentes na sociedade brasileira. Impedem, em suma, que os partidos traduzam todo o pluralismo da nossa sociedade em conflito político organizado.
Esse é um fator que alimenta a polarização política atual. Afinal, a população não é composta por 50% de bolsonaristas e 50% de petistas; eles são, respectivamente, cerca de 13% e 16% apenas, conforme pesquisa do ConnectLab, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP). Ainda assim, nosso sistema partidário não se preocupa em representar e oferecer alternativas condizentes com a diversidade de visões políticas dos brasileiros. Ao que tudo indica, na eleição presidencial deste ano, não teremos um candidato identificado plenamente com ideias de centro.
Além disso, o desinteresse e a debilidade ideológica e programática dos partidos brasileiros comprometem sua aptidão de formular e discutir visões de futuro para o País; visões que são urgentes neste momento de incertezas existenciais, geopolíticas e de transformações tecnológicas imparáveis. Sem articulação coletiva, sem deliberação plural e organizada, o destino político do País tende a depender novamente do carisma e da capacidade de mobilização do líder político da vez – uma solução de que a maior parte dos brasileiros já se cansou, mas nossos partidos ainda não. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)
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