Bolsonaro foi preso preventivamente nesse sábado (22). (Foto: Carolina Antunes/Arquivo/PR)
Preso neste sábado (22) por ordem do ministro Alexandre de Moraes, o ex-presidente Jair Bolsonaro tem uma trajetória incomum na política brasileira, marcada por ascensão rápida ao poder, forte polarização e controvérsias que se estenderam muito além de seu mandato.
Ele surpreendeu o País ao vencer as eleições de 2018 para o cargo mais alto da República. Com uma candidatura apoiada por um partido pequeno, pouco tempo de televisão e forte dependência das redes sociais, Bolsonaro construiu uma campanha que se apoiou na retórica antissistema, no combate à corrupção, no intenso discurso antipetista e no resgate de valores alinhados à direita conservadora. Sua vitória expressou, em parte, um descontentamento social acumulado desde os protestos de 2013 e a insatisfação com escândalos de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT).
Capitão reformado do Exército e deputado federal do chamado “baixo clero” por quase trinta anos, Bolsonaro foi, por muito tempo, uma figura periférica na Câmara dos Deputados. Durante esse período, construiu uma imagem de defensor das Forças Armadas, dos valores conservadores e da segurança pública, ao mesmo tempo em que colecionava polêmicas que ampliaram sua visibilidade nacional. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 2016, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, quando homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido oficialmente como torturador da ditadura militar. O gesto consolidou, simultaneamente, a rejeição de seus críticos e a admiração de parte de sua base.
Sua eleição em 2018 marcou a transição de personagem marginal para protagonista central da política brasileira. Durante a campanha, o atentado à faca sofrido em Juiz de Fora (MG) impulsionou ainda mais seu capital político, ao afastá-lo dos debates e reforçar a imagem de vítima de forças contrárias ao seu projeto. No segundo turno, derrotou Fernando Haddad com mais de 55% dos votos e chegou ao poder com grande apoio de eleitores conservadores, grupos evangélicos e setores das Forças Armadas.
No governo, Bolsonaro formou uma equipe heterogênea, que incluía militares, aliados ideológicos e técnicos. Paulo Guedes, à frente do Ministério da Economia, teve autonomia para conduzir uma agenda liberal que prometia privatizações, ajuste fiscal e abertura econômica. A principal vitória legislativa desse período foi a reforma da Previdência, aprovada em 2019. No entanto, muitos dos projetos estruturais prometidos, como a reforma tributária, não avançaram, e o crescimento econômico permaneceu modesto, com recuperação parcial após a queda de 2020 causada pela pandemia.
Paralelamente, Bolsonaro adotou uma agenda de costumes fortemente conservadora e investiu em políticas que ampliaram o acesso a armas de fogo. Também travou confrontos frequentes com o Supremo Tribunal Federal, governadores e a imprensa, alimentando uma retórica permanente de conflito político e institucional.
Durante a pandemia de covid-19, seu governo enfrentou críticas nacionais e internacionais. Bolsonaro minimizou a gravidade do vírus, ironizou medidas de prevenção, defendeu medicamentos sem eficácia comprovada, atrasou decisões importantes sobre vacinas e tensionou as relações com estados e municípios. O período, somado a mais de 700 mil mortes, tornou-se um dos eixos centrais de questionamentos sobre sua gestão.
Em 2022, Bolsonaro tentou a reeleição com o general Braga Netto como vice. Sua campanha foi marcada por motos, comícios de grande porte e reiterados ataques ao sistema eleitoral. Chegou a convocar embaixadores para apresentar suspeitas sem provas sobre as urnas eletrônicas. No segundo turno, enfrentou Luiz Inácio Lula da Silva e foi derrotado na disputa mais acirrada desde a redemocratização.
Após o resultado, Bolsonaro permaneceu semanas em silêncio e viajou para os Estados Unidos antes mesmo do término do mandato, o que alimentou expectativas e teorias entre seus apoiadores. Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Embora Bolsonaro tenha negado envolvimento, investigações posteriores indicaram que ele, nos bastidores, estimulou discursos que questionavam a legitimidade do processo eleitoral.
Depois de deixar o governo, passou a responder a diversos processos na Justiça. Em setembro, foi condenado por tentativa de golpe de Estado. A prisão decretada agora é preventiva, ou seja, sem prazo fixo. Moraes justificou a decisão afirmando que uma vigília convocada para a porta do condomínio onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar tinha o objetivo de impedir sua prisão e que o ex-presidente teria violado a tornozeleira eletrônica, sugerindo risco de fuga. Como sua condenação ultrapassa oito anos — 27 anos e três meses —, ele deverá cumprir pena inicialmente em regime fechado, devendo, assim, emendar a prisão preventiva com o início da execução penal tão logo se esgotem os recursos.
Anistia
Em 2023, o TSE o declarou inelegível por oito anos, por abuso de poder político na reunião com embaixadores estrangeiros.
No ano seguinte, o Supremo o tornou réu por tentativa de golpe de Estado. Em setembro deste ano, ele foi condenado a 27 anos de 3 meses. Desde então, Bolsonaro passou a articular, junto a aliados, uma proposta de anistia ampla aos envolvidos nos atos golpistas.
https://www.osul.com.br/dos-anos-na-camara-a-presidencia-e-a-prisao-a-trajetoria-do-ex-presidente-jair-bolsonaro/ Dos anos na Câmara, à Presidência e à prisão: a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro 2025-11-22
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Capitão reformado do Exército e deputado federal do chamado “baixo clero” por quase trinta anos, Bolsonaro foi, por muito tempo, uma figura periférica na Câmara dos Deputados. Durante esse período, construiu uma imagem de defensor das Forças Armadas, dos valores conservadores e da segurança pública, ao mesmo tempo em que colecionava polêmicas que ampliaram sua visibilidade nacional. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 2016, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, quando homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido oficialmente como torturador da ditadura militar. O gesto consolidou, simultaneamente, a rejeição de seus críticos e a admiração de parte de sua base.
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No governo, Bolsonaro formou uma equipe heterogênea, que incluía militares, aliados ideológicos e técnicos. Paulo Guedes, à frente do Ministério da Economia, teve autonomia para conduzir uma agenda liberal que prometia privatizações, ajuste fiscal e abertura econômica. A principal vitória legislativa desse período foi a reforma da Previdência, aprovada em 2019. No entanto, muitos dos projetos estruturais prometidos, como a reforma tributária, não avançaram, e o crescimento econômico permaneceu modesto, com recuperação parcial após a queda de 2020 causada pela pandemia.
Paralelamente, Bolsonaro adotou uma agenda de costumes fortemente conservadora e investiu em políticas que ampliaram o acesso a armas de fogo. Também travou confrontos frequentes com o Supremo Tribunal Federal, governadores e a imprensa, alimentando uma retórica permanente de conflito político e institucional.
Durante a pandemia de covid-19, seu governo enfrentou críticas nacionais e internacionais. Bolsonaro minimizou a gravidade do vírus, ironizou medidas de prevenção, defendeu medicamentos sem eficácia comprovada, atrasou decisões importantes sobre vacinas e tensionou as relações com estados e municípios. O período, somado a mais de 700 mil mortes, tornou-se um dos eixos centrais de questionamentos sobre sua gestão.
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Depois de deixar o governo, passou a responder a diversos processos na Justiça. Em setembro, foi condenado por tentativa de golpe de Estado. A prisão decretada agora é preventiva, ou seja, sem prazo fixo. Moraes justificou a decisão afirmando que uma vigília convocada para a porta do condomínio onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar tinha o objetivo de impedir sua prisão e que o ex-presidente teria violado a tornozeleira eletrônica, sugerindo risco de fuga. Como sua condenação ultrapassa oito anos — 27 anos e três meses —, ele deverá cumprir pena inicialmente em regime fechado, devendo, assim, emendar a prisão preventiva com o início da execução penal tão logo se esgotem os recursos.
Anistia
Em 2023, o TSE o declarou inelegível por oito anos, por abuso de poder político na reunião com embaixadores estrangeiros.
No ano seguinte, o Supremo o tornou réu por tentativa de golpe de Estado. Em setembro deste ano, ele foi condenado a 27 anos de 3 meses. Desde então, Bolsonaro passou a articular, junto a aliados, uma proposta de anistia ampla aos envolvidos nos atos golpistas.
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