O desfile foi muito além de uma homenagem a Lula. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
A esta altura, pouco importa o que pensam os doutores da Justiça Eleitoral a respeito da flagrante antecipação de campanha eleitoral levada ao sambódromo do Rio de Janeiro pela escola de samba Acadêmicos de Niterói, na forma de “homenagem” ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Provavelmente, alguns ministros do Tribunal Superior Eleitoral produzirão muitos prolegômenos parnasianos para sustentar argumentos destinados a exonerar os carnavalescos, bem como os beneficiários da patuscada, de qualquer ilícito eleitoral, citando alíneas e parágrafos de uma legislação que, ao fim e ao cabo, só serve para aplicar multas irrisórias contra quem delinque de forma contumaz, caso de Lula.
Mas, para quem viu o horroroso desfile e ouviu o destrambelhado samba-enredo, não restou dúvida nenhuma de que se estava diante de um ato característico de campanha – que, bem ao estilo petista, debochou da inteligência alheia, da lei, dos adversários de Lula, dos evangélicos e da instituição da família.
Tudo isso sob as bênçãos de Lula em pessoa, que não só acompanhou o desfile de um camarote do sambódromo, como desceu à avenida para cumprimentar os integrantes da escola. Por muito pouco, a primeira-dama Janja da Silva não desfilou como destaque num carro alegórico. Ela chegou a se preparar para o desfile, mas alguém de bom senso deve tê-la convencido de que sua presença ali selaria simbolicamente a relação direta entre a apresentação da escola e a campanha do marido à reeleição.
É difícil, mas vamos dar o benefício da dúvida ao sr. Pipico. Digamos que o objetivo da escola fosse mesmo apenas celebrar Lula, que é, de fato, um dos políticos mais relevantes da história brasileira. No entanto, o desfile foi muito além de uma homenagem a Lula. Primeiro, destaque-se o carro alegórico que trazia o ex-presidente Jair Bolsonaro caracterizado como um palhaço preso. Depois, um integrante da escola que representava o ex-presidente Michel Temer apareceu “roubando” a faixa de Dilma Rousseff, numa encenação do impeachment da petista.
Ora, depreciar adversários políticos é coisa típica de campanha eleitoral. O fato de Lula aviltar seus adversários políticos todos os dias, mesmo fora da época de campanha, não muda essa realidade. Logo, será preciso muita ginástica hermenêutica para não ver nesses pontos do desfile a intenção de contrastar Lula com seus opositores, o que geralmente os candidatos fazem quando pedem votos.
Por fim, mas não menos relevante, uma ala da escola de samba fantasiou-se de “latas de conserva” para satirizar a “família tradicional”. De quebra, esses personagens carregavam bíblias, em clara intenção de debochar dos evangélicos. Nesse caso, parece óbvio que a ideia era menosprezar os eleitores conservadores, sobretudo os evangélicos, que, conforme indicam as pesquisas, vão continuar a votar contra Lula.
Tudo isso, recorde-se, foi transmitido ao vivo pela maior emissora de TV do País, com enorme alcance. Outros candidatos não tiveram nem terão a mesma oportunidade. É isso o que caracteriza o desequilíbrio eleitoral que demanda atuação da Justiça. Esse desequilíbrio ficou tão evidente que o próprio governo mandou que seus ministros se abstivessem de participar do desfile. Ora, se não havia nada de errado na apresentação da Acadêmicos de Niterói, os ministros e o próprio Lula deveriam ter sambado, cantando o samba-enredo a plenos pulmões, em agradecimento a tamanha deferência. Se não o fizeram, é porque sabiam que se tratava de escandalosa propaganda eleitoral, passível de punição.
Por ora, o único castigo para tanto cinismo foi o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói. Que seja um presságio.
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Desfile de escola de samba que “homenageou” Lula configura clara antecipação de campanha eleitoral
O desfile foi muito além de uma homenagem a Lula.
Foto: Ricardo Stuckert/PR
O desfile foi muito além de uma homenagem a Lula. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
A esta altura, pouco importa o que pensam os doutores da Justiça Eleitoral a respeito da flagrante antecipação de campanha eleitoral levada ao sambódromo do Rio de Janeiro pela escola de samba Acadêmicos de Niterói, na forma de “homenagem” ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Provavelmente, alguns ministros do Tribunal Superior Eleitoral produzirão muitos prolegômenos parnasianos para sustentar argumentos destinados a exonerar os carnavalescos, bem como os beneficiários da patuscada, de qualquer ilícito eleitoral, citando alíneas e parágrafos de uma legislação que, ao fim e ao cabo, só serve para aplicar multas irrisórias contra quem delinque de forma contumaz, caso de Lula.
Mas, para quem viu o horroroso desfile e ouviu o destrambelhado samba-enredo, não restou dúvida nenhuma de que se estava diante de um ato característico de campanha – que, bem ao estilo petista, debochou da inteligência alheia, da lei, dos adversários de Lula, dos evangélicos e da instituição da família.
Tudo isso sob as bênçãos de Lula em pessoa, que não só acompanhou o desfile de um camarote do sambódromo, como desceu à avenida para cumprimentar os integrantes da escola. Por muito pouco, a primeira-dama Janja da Silva não desfilou como destaque num carro alegórico. Ela chegou a se preparar para o desfile, mas alguém de bom senso deve tê-la convencido de que sua presença ali selaria simbolicamente a relação direta entre a apresentação da escola e a campanha do marido à reeleição.
É difícil, mas vamos dar o benefício da dúvida ao sr. Pipico. Digamos que o objetivo da escola fosse mesmo apenas celebrar Lula, que é, de fato, um dos políticos mais relevantes da história brasileira. No entanto, o desfile foi muito além de uma homenagem a Lula. Primeiro, destaque-se o carro alegórico que trazia o ex-presidente Jair Bolsonaro caracterizado como um palhaço preso. Depois, um integrante da escola que representava o ex-presidente Michel Temer apareceu “roubando” a faixa de Dilma Rousseff, numa encenação do impeachment da petista.
Ora, depreciar adversários políticos é coisa típica de campanha eleitoral. O fato de Lula aviltar seus adversários políticos todos os dias, mesmo fora da época de campanha, não muda essa realidade. Logo, será preciso muita ginástica hermenêutica para não ver nesses pontos do desfile a intenção de contrastar Lula com seus opositores, o que geralmente os candidatos fazem quando pedem votos.
Por fim, mas não menos relevante, uma ala da escola de samba fantasiou-se de “latas de conserva” para satirizar a “família tradicional”. De quebra, esses personagens carregavam bíblias, em clara intenção de debochar dos evangélicos. Nesse caso, parece óbvio que a ideia era menosprezar os eleitores conservadores, sobretudo os evangélicos, que, conforme indicam as pesquisas, vão continuar a votar contra Lula.
Tudo isso, recorde-se, foi transmitido ao vivo pela maior emissora de TV do País, com enorme alcance. Outros candidatos não tiveram nem terão a mesma oportunidade. É isso o que caracteriza o desequilíbrio eleitoral que demanda atuação da Justiça. Esse desequilíbrio ficou tão evidente que o próprio governo mandou que seus ministros se abstivessem de participar do desfile. Ora, se não havia nada de errado na apresentação da Acadêmicos de Niterói, os ministros e o próprio Lula deveriam ter sambado, cantando o samba-enredo a plenos pulmões, em agradecimento a tamanha deferência. Se não o fizeram, é porque sabiam que se tratava de escandalosa propaganda eleitoral, passível de punição.
Por ora, o único castigo para tanto cinismo foi o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói. Que seja um presságio.
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