A insatisfação popular com a chamada “classe política”, associada ao desgaste provocado pela polarização tão virulenta quanto estéril entre Lula e Bolsonaro, abriu uma avenida para os chamados outsiders
O apelo dos outsiders não é fruto da irracionalidade do eleitor.
Foto: Reprodução
O apelo dos outsiders não é fruto da irracionalidade do eleitor. (Foto: Reprodução)
A história republicana do País demonstra que a supremacia da emoção sobre a razão abre um perigoso espaço, de tempos em tempos, para a ascensão de aventureiros políticos.
Na atual quadra, a insatisfação popular com a chamada “classe política”, associada ao desgaste provocado pela polarização tão virulenta quanto estéril entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, abriu uma avenida para os chamados outsiders, aqueles que se apresentam como elixir contra um “sistema” que supostamente degrada tudo o que toca. A tentação de seguir essa gente, como bem se sabe, é grande. Mas é também perigosa.
Uma pesquisa Genial/Quaest realizada entre os dias 13 e 17 deste mês, à qual o jornalista César Felício, do Valor Econômico, teve acesso, revelou que 27% dos eleitores consideram ideal para o Brasil, em 2026, a eleição de “alguém de fora da política” para a Presidência da República.
Já para 28% o melhor cenário é a reeleição de Lula, ante 19% que acreditam que o melhor para o País é a vitória de Bolsonaro, malgrado o ex-presidente estar inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se da comprovação estatística de que cresce na sociedade uma “demanda por novidade”, como salientou Felício. Essa “novidade” confunde-se com a negação da política. Isso deveria preocupar todos os que, como este jornal, têm compromisso inarredável com os valores democráticos e princípios republicanos.
O apelo dos outsiders não é fruto da irracionalidade do eleitor. É apenas o termômetro de uma patologia social à qual não deu causa: o descaso de políticos profissionais pelos reais anseios da sociedade. Parlamentares e governantes, ao priorizarem seus interesses pessoais e partidários em detrimento das necessidades prementes da população, afastam-se da missão essencial de exercer o poder com responsabilidade e espírito público.
Diante disso, pouco resta ao eleitor a não ser pautar suas decisões pela descrença. O erro, portanto, não é do eleitorado, mas daqueles que traem o mandato por enxergarem a política como patrimônio, não como serviço.
Convém lembrar: não há solução civilizada fora da política. Rejeitar a política é abrir caminho para a barbárie e para o arbítrio. A política, com todas as suas imperfeições, é a única via de concertação civilizada entre a miríade de interesses em jogo numa sociedade complexa como a brasileira.
Não é por outra razão que a Constituição estabelece a filiação partidária como condição de elegibilidade. Mas outsiders, por definição, são incontroláveis. Ao não se submeterem às regras escritas e não escritas que regem a vida pública, em particular a vida partidária, transformam a atividade política em terreno instável, hostil ao debate democrático e nocivo ao desenvolvimento político, social e econômico do País.
Os partidos políticos, por sua vez, ao invés de se fortalecerem como instituições que filtram, preparam e disciplinam lideranças públicas, têm se deixado capturar pelo canto de sereia das candidaturas oportunistas.
Movidos pelo desejo imediato de conquistar o poder – e ter acesso a nacos cada vez mais robustos do Fundo Partidário –, oferecem legenda a figuras notoriamente desqualificadas para a política, mas que, por seu apelo midiático ou carismático, acabam capturando atenções e passam a submeter a máquina partidária a seus desígnios pessoais. O resultado é a degradação do próprio modelo de representação política democrática.
Os outsiders não são prejudiciais apenas para as legendas, mas sobretudo para o País. A curtíssimo prazo, os choques que buscam dar nas instituições e nos modelos de governança podem até gerar resultados que vão ao encontro dos anseios daqueles que os elegeram.
Mas a imprevisibilidade e o personalismo logo cobram seu preço. Afinal, como fazer negócios e prover segurança jurídica a cidadãos e empresas em um ambiente sem regras estáveis, vale dizer, suscetível aos humores do governante de turno?
A antipolítica nunca foi solução para nossas mazelas. É veneno. O Brasil precisa de líderes capazes de resgatar a confiança da sociedade na política como instrumento de mudança. A alternativa a isso é a aventura – e aventureiros, como a experiência comprova, só trazem desordem e frustração. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)
https://www.osul.com.br/a-insatisfacao-popular-com-a-chamada-classe-politica-associada-ao-desgaste-provocado-pela-polarizacao-tao-virulenta-quanto-esteril-entre-lula-e-bolsonaro-abriu-uma-avenida-para-os/ A insatisfação popular com a chamada “classe política”, associada ao desgaste provocado pela polarização tão virulenta quanto estéril entre Lula e Bolsonaro, abriu uma avenida para os chamados outsiders 2025-09-01
Os ministros podem inserir os votos no sistema eletrônico da Corte até esta quarta Foto: Wallace Martins/STF Os ministros podem inserir os votos no sistema eletrônico da Corte até esta quarta (1º). (Foto: Wallace Martins/STF) O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria nessa terça-feira (30) para manter, nas eleições de 2026, o atual número de …
“Eles estão em dúvida porque sabem de uma coisa: eles perderão as eleições em 2026”, afirmou o presidente. (Foto: Ricardo Stuckert/PR) O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que acredita que a direita será derrotada nas eleições de 2026. Em entrevista concedida à TV Alterosa, emissora de Minas Gerais, Lula reiterou a avaliação de …
Depois de uma semana de articulações em Brasília, Tarcísio (foto) cobrou nominalmente Motta a pautar a anistia. (Foto: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP) Os planos da oposição para a semana final de julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) foram “por água abaixo”. O Partido Liberal (PL) não conseguiu convencer o …
Presidente da Corte estuda criar regras para integrantes de tribunais superiores com inspiração em Corte da Alemanha. (Foto: Antonio Augusto/STF) A revelação de um voo do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), com um advogado do caso do Banco Master, reacendeu na Corte a discussão sobre a criação de um código de conduta …
A insatisfação popular com a chamada “classe política”, associada ao desgaste provocado pela polarização tão virulenta quanto estéril entre Lula e Bolsonaro, abriu uma avenida para os chamados outsiders
O apelo dos outsiders não é fruto da irracionalidade do eleitor.
Foto: Reprodução
O apelo dos outsiders não é fruto da irracionalidade do eleitor. (Foto: Reprodução)
A história republicana do País demonstra que a supremacia da emoção sobre a razão abre um perigoso espaço, de tempos em tempos, para a ascensão de aventureiros políticos.
Na atual quadra, a insatisfação popular com a chamada “classe política”, associada ao desgaste provocado pela polarização tão virulenta quanto estéril entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, abriu uma avenida para os chamados outsiders, aqueles que se apresentam como elixir contra um “sistema” que supostamente degrada tudo o que toca. A tentação de seguir essa gente, como bem se sabe, é grande. Mas é também perigosa.
Uma pesquisa Genial/Quaest realizada entre os dias 13 e 17 deste mês, à qual o jornalista César Felício, do Valor Econômico, teve acesso, revelou que 27% dos eleitores consideram ideal para o Brasil, em 2026, a eleição de “alguém de fora da política” para a Presidência da República.
Já para 28% o melhor cenário é a reeleição de Lula, ante 19% que acreditam que o melhor para o País é a vitória de Bolsonaro, malgrado o ex-presidente estar inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se da comprovação estatística de que cresce na sociedade uma “demanda por novidade”, como salientou Felício. Essa “novidade” confunde-se com a negação da política. Isso deveria preocupar todos os que, como este jornal, têm compromisso inarredável com os valores democráticos e princípios republicanos.
O apelo dos outsiders não é fruto da irracionalidade do eleitor. É apenas o termômetro de uma patologia social à qual não deu causa: o descaso de políticos profissionais pelos reais anseios da sociedade. Parlamentares e governantes, ao priorizarem seus interesses pessoais e partidários em detrimento das necessidades prementes da população, afastam-se da missão essencial de exercer o poder com responsabilidade e espírito público.
Diante disso, pouco resta ao eleitor a não ser pautar suas decisões pela descrença. O erro, portanto, não é do eleitorado, mas daqueles que traem o mandato por enxergarem a política como patrimônio, não como serviço.
Convém lembrar: não há solução civilizada fora da política. Rejeitar a política é abrir caminho para a barbárie e para o arbítrio. A política, com todas as suas imperfeições, é a única via de concertação civilizada entre a miríade de interesses em jogo numa sociedade complexa como a brasileira.
Não é por outra razão que a Constituição estabelece a filiação partidária como condição de elegibilidade. Mas outsiders, por definição, são incontroláveis. Ao não se submeterem às regras escritas e não escritas que regem a vida pública, em particular a vida partidária, transformam a atividade política em terreno instável, hostil ao debate democrático e nocivo ao desenvolvimento político, social e econômico do País.
Os partidos políticos, por sua vez, ao invés de se fortalecerem como instituições que filtram, preparam e disciplinam lideranças públicas, têm se deixado capturar pelo canto de sereia das candidaturas oportunistas.
Movidos pelo desejo imediato de conquistar o poder – e ter acesso a nacos cada vez mais robustos do Fundo Partidário –, oferecem legenda a figuras notoriamente desqualificadas para a política, mas que, por seu apelo midiático ou carismático, acabam capturando atenções e passam a submeter a máquina partidária a seus desígnios pessoais. O resultado é a degradação do próprio modelo de representação política democrática.
Os outsiders não são prejudiciais apenas para as legendas, mas sobretudo para o País. A curtíssimo prazo, os choques que buscam dar nas instituições e nos modelos de governança podem até gerar resultados que vão ao encontro dos anseios daqueles que os elegeram.
Mas a imprevisibilidade e o personalismo logo cobram seu preço. Afinal, como fazer negócios e prover segurança jurídica a cidadãos e empresas em um ambiente sem regras estáveis, vale dizer, suscetível aos humores do governante de turno?
A antipolítica nunca foi solução para nossas mazelas. É veneno. O Brasil precisa de líderes capazes de resgatar a confiança da sociedade na política como instrumento de mudança. A alternativa a isso é a aventura – e aventureiros, como a experiência comprova, só trazem desordem e frustração. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)
https://www.osul.com.br/a-insatisfacao-popular-com-a-chamada-classe-politica-associada-ao-desgaste-provocado-pela-polarizacao-tao-virulenta-quanto-esteril-entre-lula-e-bolsonaro-abriu-uma-avenida-para-os/
A insatisfação popular com a chamada “classe política”, associada ao desgaste provocado pela polarização tão virulenta quanto estéril entre Lula e Bolsonaro, abriu uma avenida para os chamados outsiders
2025-09-01
Related Posts
Supremo forma maioria para manter atual número de deputados nas eleições de 2026
Os ministros podem inserir os votos no sistema eletrônico da Corte até esta quarta Foto: Wallace Martins/STF Os ministros podem inserir os votos no sistema eletrônico da Corte até esta quarta (1º). (Foto: Wallace Martins/STF) O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria nessa terça-feira (30) para manter, nas eleições de 2026, o atual número de …
“Quem inventa muito nome é porque não tem nenhum”, afirma Lula sobre candidatos da direita à Presidência da República
“Eles estão em dúvida porque sabem de uma coisa: eles perderão as eleições em 2026”, afirmou o presidente. (Foto: Ricardo Stuckert/PR) O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que acredita que a direita será derrotada nas eleições de 2026. Em entrevista concedida à TV Alterosa, emissora de Minas Gerais, Lula reiterou a avaliação de …
Oposição bolsonarista volta a desconfiar de Tarcísio de Freitas após anistia “esfriar” e exige mais empenho por Bolsonaro
Depois de uma semana de articulações em Brasília, Tarcísio (foto) cobrou nominalmente Motta a pautar a anistia. (Foto: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP) Os planos da oposição para a semana final de julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) foram “por água abaixo”. O Partido Liberal (PL) não conseguiu convencer o …
Presidente do Supremo busca colegas para avançar com proposta de código de conduta para ministros
Presidente da Corte estuda criar regras para integrantes de tribunais superiores com inspiração em Corte da Alemanha. (Foto: Antonio Augusto/STF) A revelação de um voo do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), com um advogado do caso do Banco Master, reacendeu na Corte a discussão sobre a criação de um código de conduta …