Segundo ele, a situação o levou a refletir sobre a forma como aliados são acolhidos por movimentos sociais e causas coletivas.
Foto: CMPA/Divulgação
Segundo ele, a situação o levou a refletir sobre a forma como aliados são acolhidos por movimentos sociais e causas coletivas. (Foto: CMPA/Divulgação)
O presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre, Moisés Barboza, leu na tribuna da Casa, durante a sessão plenária desta quarta-feira, uma carta aberta endereçada à bancada LGBT do Legislativo. No texto, o parlamentar propõe uma reflexão sobre inclusão, reconhecimento e o papel dos aliados na luta contra o preconceito.
Após a leitura, Moisés realizou a entrega formal do documento aos vereadores e vereadoras que integram a comunidade LGBT na Câmara.
A manifestação ocorreu poucos dias após a realização da Parada Livre de Porto Alegre, evento que integra oficialmente o calendário da capital gaúcha por meio de uma lei de autoria do próprio presidente da Casa. Durante o pronunciamento, Moisés relembrou o período em que apresentou o projeto e afirmou ter enfrentado críticas e ataques por defender a iniciativa.
“Quando apresentei esse projeto, enfrentei críticas duras, ataques, ofensas e incompreensões de todos os lados. Ainda assim, segui firme, porque sempre entendi que o papel de um parlamentar é construir pontes, ampliar direitos e garantir dignidade a todos”, declarou.
Na carta, o presidente da Câmara afirma que, ao longo dos anos, percebeu uma falta de reconhecimento em relação à sua participação na inclusão da Parada Livre no calendário oficial da cidade. Segundo ele, a situação o levou a refletir sobre a forma como aliados são acolhidos por movimentos sociais e causas coletivas.
Moisés questiona se a exclusão ou a falta de reconhecimento de pessoas que apoiam a causa LGBT, mas não pertencem à comunidade ou possuem posicionamentos políticos diferentes, não reproduziria a mesma lógica de preconceito combatida pelos movimentos em defesa da diversidade.
“Não reconhecer o esforço de um aliado, apenas porque ele não se encaixa no padrão ou no partido esperado, também não seria uma forma de preconceito?”, escreveu.
O parlamentar também afirmou que não busca homenagens ou reconhecimento pessoal, mas considera importante abrir espaço para o debate sobre a valorização de aliados que atuam em defesa de pautas ligadas aos direitos humanos e à inclusão.
“A luta por respeito, dignidade e direitos não deveria ser restrita apenas a quem vive determinada realidade. Causas coletivas precisam de aliados. Precisam de pontes”, destacou.
Outro ponto abordado na carta é a necessidade de que os próprios espaços de militância e representação sejam inclusivos. Segundo Moisés, a construção de uma sociedade mais plural exige acolhimento a pessoas de diferentes trajetórias que optam por apoiar determinadas causas.
“A inclusão que desejamos para a sociedade precisa também existir dentro dos espaços de militância e representação. Caso contrário, corremos o risco de transformar causas legítimas em espaços fechados, onde só pertence quem preenche determinados marcadores de identidade”, afirmou.
Ao encerrar a manifestação, o presidente da Câmara reforçou que continuará defendendo o respeito à diversidade, o combate à violência e a dignidade de todas as pessoas, independentemente de reconhecimento público.
“Continuarei defendendo o respeito à diversidade, o combate à violência e a dignidade de todas as pessoas, independentemente de convites, reconhecimento ou validação. Mas considero importante abrir essa reflexão”, concluiu.
Leia a carta
“Queridos colegas,
Escrevo esta carta movido por uma reflexão sincera após a realização da Parada LGBT de Porto Alegre, ocorrida ontem em nossa capital.
Alguns anos atrás, apresentei e defendi a inclusão da Parada Livre no calendário oficial de eventos de Porto Alegre, para que, para além da conscientização, a cidade pudesse se organizar oficialmente para receber esse evento anualmente.
E não escondo: paguei caro por isso na época.
Quando apresentei o projeto, enfrentei críticas duras, ataques, ofensas e incompreensões de todos os lados. Fui questionado, julgado e até hostilizado por defender algo que, para mim, sempre foi uma questão de respeito, cidadania e reconhecimento, por acreditar que o preconceito é, infelizmente, uma das faces mais obscuras do espírito humano.
Ainda assim, segui firme, sendo, inclusive, autor de outras iniciativas aprovadas na busca por um mundo mais justo e humano.
Segui porque entendo que meu papel, como cidadão e como parlamentar, não é atuar e defender apenas quem pensa igual a mim ou grupos aos quais pertenço pessoalmente. Nosso dever é construir pontes, ampliar direitos e garantir dignidade a todos.
Com o tempo, a falta de reconhecimento em relação à Parada virou parte da paisagem. Aprendi a conviver com o silêncio após a votação, com a ausência de um “valeu” quando a Parada virou lei, com o fato de que meu nome simplesmente sumiu da história como alguém que contribuiu para isso.
Assumi isso. Faz parte da luta.
Mas hoje, vendo a cidade ainda com os ecos da Parada de ontem, me pego diante de uma reflexão que não consigo calar: não reconhecer o esforço de um aliado, apenas porque ele não se encaixa no padrão ou no partido esperado, também não seria uma forma de preconceito?
Se a gente exclui, apaga ou desconfia de quem estende a mão só porque essa mão é heterossexual, ou porque vem de um partido de centro, não estaríamos reproduzindo a mesma lógica que combatemos lá fora?
Estaríamos dizendo que só vale a luta se ela vier de quem tem o corpo certo, o discurso certo, o crachá certo ou o partido certo.
Eu me recuso a acreditar que a luta contra o preconceito seja propriedade de apenas um campo ideológico.
E me recuso a acreditar que a bancada da diversidade seja isso.
Não escrevo em busca de aplausos, homenagens ou reconhecimento pessoal. Escrevo como um desabafo sincero, porque essa reflexão me dói.
Escrevo porque me preocupa a lógica de afastamento que, muitas vezes, também surge dentro dos próprios movimentos que defendem inclusão.
Tenho plena consciência dos privilégios e das diferenças que marcam minha trajetória em relação à vivência de quem integra a comunidade LGBT. Mas será que essas características, por si só, deveriam me impedir de ser visto como um aliado?
A luta por respeito, dignidade e direitos não deveria ser restrita apenas a quem vive determinada realidade. Causas coletivas precisam de aliados. Precisam de pontes. Precisam, inclusive, de pessoas dispostas a enfrentar resistências em ambientes nos quais, muitas vezes, a própria comunidade ainda encontra barreiras para entrar.
Quando aliados são permanentemente mantidos à distância, algo precisa ser refletido.
A inclusão que desejamos para a sociedade precisa também existir dentro dos espaços de militância e representação. Caso contrário, corremos o risco de transformar causas legítimas em espaços fechados, onde só pertence quem preenche determinados marcadores de identidade.
Acredito em uma política que una, não que segregue.
Continuarei defendendo o respeito à diversidade, o combate à violência e a dignidade de todas as pessoas, independentemente de convites, reconhecimento ou validação.
Mas considero importante abrir essa reflexão.
Se queremos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, talvez seja hora de também repensarmos como acolhemos aqueles que, mesmo vindos de realidades diferentes, escolhem caminhar ao lado dessa luta.
Com respeito,
Moisés Barboza Presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre”
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Presidente da Câmara de Porto Alegre lê carta na tribuna e provoca reflexão sobre inclusão de aliados na luta LGBT
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Foto: CMPA/Divulgação
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O presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre, Moisés Barboza, leu na tribuna da Casa, durante a sessão plenária desta quarta-feira, uma carta aberta endereçada à bancada LGBT do Legislativo. No texto, o parlamentar propõe uma reflexão sobre inclusão, reconhecimento e o papel dos aliados na luta contra o preconceito.
Após a leitura, Moisés realizou a entrega formal do documento aos vereadores e vereadoras que integram a comunidade LGBT na Câmara.
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“Quando apresentei esse projeto, enfrentei críticas duras, ataques, ofensas e incompreensões de todos os lados. Ainda assim, segui firme, porque sempre entendi que o papel de um parlamentar é construir pontes, ampliar direitos e garantir dignidade a todos”, declarou.
Na carta, o presidente da Câmara afirma que, ao longo dos anos, percebeu uma falta de reconhecimento em relação à sua participação na inclusão da Parada Livre no calendário oficial da cidade. Segundo ele, a situação o levou a refletir sobre a forma como aliados são acolhidos por movimentos sociais e causas coletivas.
Moisés questiona se a exclusão ou a falta de reconhecimento de pessoas que apoiam a causa LGBT, mas não pertencem à comunidade ou possuem posicionamentos políticos diferentes, não reproduziria a mesma lógica de preconceito combatida pelos movimentos em defesa da diversidade.
“Não reconhecer o esforço de um aliado, apenas porque ele não se encaixa no padrão ou no partido esperado, também não seria uma forma de preconceito?”, escreveu.
O parlamentar também afirmou que não busca homenagens ou reconhecimento pessoal, mas considera importante abrir espaço para o debate sobre a valorização de aliados que atuam em defesa de pautas ligadas aos direitos humanos e à inclusão.
“A luta por respeito, dignidade e direitos não deveria ser restrita apenas a quem vive determinada realidade. Causas coletivas precisam de aliados. Precisam de pontes”, destacou.
Outro ponto abordado na carta é a necessidade de que os próprios espaços de militância e representação sejam inclusivos. Segundo Moisés, a construção de uma sociedade mais plural exige acolhimento a pessoas de diferentes trajetórias que optam por apoiar determinadas causas.
“A inclusão que desejamos para a sociedade precisa também existir dentro dos espaços de militância e representação. Caso contrário, corremos o risco de transformar causas legítimas em espaços fechados, onde só pertence quem preenche determinados marcadores de identidade”, afirmou.
Ao encerrar a manifestação, o presidente da Câmara reforçou que continuará defendendo o respeito à diversidade, o combate à violência e a dignidade de todas as pessoas, independentemente de reconhecimento público.
“Continuarei defendendo o respeito à diversidade, o combate à violência e a dignidade de todas as pessoas, independentemente de convites, reconhecimento ou validação. Mas considero importante abrir essa reflexão”, concluiu.
Leia a carta
“Queridos colegas,
Escrevo esta carta movido por uma reflexão sincera após a realização da Parada LGBT de Porto Alegre, ocorrida ontem em nossa capital.
Alguns anos atrás, apresentei e defendi a inclusão da Parada Livre no calendário oficial de eventos de Porto Alegre, para que, para além da conscientização, a cidade pudesse se organizar oficialmente para receber esse evento anualmente.
E não escondo: paguei caro por isso na época.
Quando apresentei o projeto, enfrentei críticas duras, ataques, ofensas e incompreensões de todos os lados. Fui questionado, julgado e até hostilizado por defender algo que, para mim, sempre foi uma questão de respeito, cidadania e reconhecimento, por acreditar que o preconceito é, infelizmente, uma das faces mais obscuras do espírito humano.
Ainda assim, segui firme, sendo, inclusive, autor de outras iniciativas aprovadas na busca por um mundo mais justo e humano.
Segui porque entendo que meu papel, como cidadão e como parlamentar, não é atuar e defender apenas quem pensa igual a mim ou grupos aos quais pertenço pessoalmente. Nosso dever é construir pontes, ampliar direitos e garantir dignidade a todos.
Com o tempo, a falta de reconhecimento em relação à Parada virou parte da paisagem. Aprendi a conviver com o silêncio após a votação, com a ausência de um “valeu” quando a Parada virou lei, com o fato de que meu nome simplesmente sumiu da história como alguém que contribuiu para isso.
Assumi isso. Faz parte da luta.
Mas hoje, vendo a cidade ainda com os ecos da Parada de ontem, me pego diante de uma reflexão que não consigo calar: não reconhecer o esforço de um aliado, apenas porque ele não se encaixa no padrão ou no partido esperado, também não seria uma forma de preconceito?
Se a gente exclui, apaga ou desconfia de quem estende a mão só porque essa mão é heterossexual, ou porque vem de um partido de centro, não estaríamos reproduzindo a mesma lógica que combatemos lá fora?
Estaríamos dizendo que só vale a luta se ela vier de quem tem o corpo certo, o discurso certo, o crachá certo ou o partido certo.
Eu me recuso a acreditar que a luta contra o preconceito seja propriedade de apenas um campo ideológico.
E me recuso a acreditar que a bancada da diversidade seja isso.
Não escrevo em busca de aplausos, homenagens ou reconhecimento pessoal. Escrevo como um desabafo sincero, porque essa reflexão me dói.
Escrevo porque me preocupa a lógica de afastamento que, muitas vezes, também surge dentro dos próprios movimentos que defendem inclusão.
Tenho plena consciência dos privilégios e das diferenças que marcam minha trajetória em relação à vivência de quem integra a comunidade LGBT. Mas será que essas características, por si só, deveriam me impedir de ser visto como um aliado?
A luta por respeito, dignidade e direitos não deveria ser restrita apenas a quem vive determinada realidade. Causas coletivas precisam de aliados. Precisam de pontes. Precisam, inclusive, de pessoas dispostas a enfrentar resistências em ambientes nos quais, muitas vezes, a própria comunidade ainda encontra barreiras para entrar.
Quando aliados são permanentemente mantidos à distância, algo precisa ser refletido.
A inclusão que desejamos para a sociedade precisa também existir dentro dos espaços de militância e representação. Caso contrário, corremos o risco de transformar causas legítimas em espaços fechados, onde só pertence quem preenche determinados marcadores de identidade.
Acredito em uma política que una, não que segregue.
Continuarei defendendo o respeito à diversidade, o combate à violência e a dignidade de todas as pessoas, independentemente de convites, reconhecimento ou validação.
Mas considero importante abrir essa reflexão.
Se queremos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, talvez seja hora de também repensarmos como acolhemos aqueles que, mesmo vindos de realidades diferentes, escolhem caminhar ao lado dessa luta.
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