Era o fim do projeto Vértice, como foi batizada a operação secreta montada pelo comando do BRB com o banqueiro Daniel Vorcaro. (Foto: Divulgação)
A semana era de comemoração do aniversário de 59 anos do BRB (Banco de Brasília). Um show do cantor de piseiro João Gomes para 3.000 funcionários do banco estava marcado para 4 de setembro do ano passado no complexo da Arena BRB, no estádio Mané Garrincha.
O clima da festa, porém, azedou. Na véspera, o Banco Central tinha vetado a compra de uma parte do Master pela instituição.
Era o fim do projeto Vértice, como foi batizada a operação secreta montada pelo comando do BRB com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Para alguns funcionários que alertaram o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, do risco de um negócio com um banqueiro novato e de baixíssima reputação, a sensação foi de alívio. Entre aqueles que jogaram o banco público numa crise sem precedentes havia uma grande tensão. Às 21h da noite do dia 3, a decisão do BC de barrar o negócio só seria comunicada oficialmente no dia seguinte.
A notícia não chegou a surpreender totalmente a Faria Lima, principal centro financeiro do Brasil, que acompanhava Vorcaro desde o fim do ano anterior, quando uma solução de mercado, patrocinada pelo BC com apoio de André Esteves, dono do BTG Pactual, foi tentada para evitar a quebra do Master.
A proposta não foi para a frente devido às resistências dos grandes bancos, em particular do Itaú Unibanco. Procurado, Esteves não quis comentar. A defesa de Vorcaro também disse que não iria se manifestar.
Quando percebeu que o negócio não sairia, Vorcaro começou a dizer a interlocutores, incluindo dirigentes do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que tinha um comprador para o banco.
Os executivos do setor bancário já tinham convicção da inviabilidade do Master. Eram crescentes os rumores sobre os problemas de liquidez e a insatisfação dos grandes bancos privados pelo crescimento do volume de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) emitidos pelo Master com garantia do FGC.
O que mais chamou a atenção do mercado financeiro foi a negociação com o BRB —um dos cinco bancos públicos regionais do país. O acordo foi bancado pelo governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), que mantinha ligação com lideranças de partidos do centrão e conhecidos aliados de Vorcaro no mundo político.
Nos dias seguintes ao anúncio, a pergunta que circulava era: por que um banco público entrou na operação para salvar o Master?
A resposta é hoje um dos principais focos de investigação de um inquérito aberto pela Polícia Federal e que tem Ibaneis, Vorcaro e Paulo Henrique Costa, como investigados, além de integrantes do BRB.
O CEO de um banco, que falou na condição de anonimato, lembra que o negócio foi visto com estranheza: um banco estatal virando controlador de uma instituição privada com problemas sérios de liquidez e cujo dono alimentava a narrativa de que os grandes bancos não queriam concorrência.
Vorcaro dizia que a operação era ganha-ganha para os dois bancos e que teria uma cogestão com o BRB no banco. O Master passaria, segundo ele, a ter acesso ao funding do BRB, mais barato e de longo prazo, e o BRB teria um braço privado com menos amarras, inclusive de regras de licitação governamental, para atuar com maior autonomia.
O BRB vinha chamando atenção no noticiário pelo contrato de patrocínio do Flamengo e pelo empréstimo de R$ 3,1 milhões concedido ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para comprar uma mansão em Brasília, mesmo tendo salário mensal apontado como incompatível para o financiamento.
Apesar da surpresa quando a aquisição foi comunicada ao BC, nos corredores do BRB corria um tititi muito antes, quando começaram reuniões frequentes com pessoas de fora do banco na chamada Sala 1, envidraçada, no gabinete da presidência.
Os encontros começaram em janeiro e logo atraíram a atenção dos funcionários do BRB, que passaram a chamar o grupo de trabalho de “secreto”. Sabia-se nos corredores era que as tratativas visavam à aquisição de um banco. Em pouco tempo, alguns empregados já tinham conhecimento de que se tratava do Master.
Em relatório entregue ao BC no início de fevereiro de 2025, o então presidente do BRB defendia a compra como um movimento estratégico para o crescimento do banco.
Os principais interlocutores de Vorcaro e Paulo Henrique Costa no BC eram o ex-diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, e o ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana. Os dois são hoje investigados por suspeita de facilitar os interesses do Banco Master.
Numa reunião em fevereiro entre Vorcaro, Costa e a diretoria de fiscalização, os representantes do BC pediram para que a proposta de compra fosse formalizada, segundo uma troca de mensagens vista pela reportagem. Procurado, o BC não respondeu a um pedido de informações sobre esse encontro.
Até o veto da operação, foram 159 dias de análise do pedido pelo BC, sob a presidência de Gabriel Galípolo. O período foi marcado por pressões da área política e do setor financeiro, seja para aprovar a operação ou para derrubá-la. Com informações da Folha de São Paulo.
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Projeto secreto de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília caiu por terra após a revelação de fraude
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O clima da festa, porém, azedou. Na véspera, o Banco Central tinha vetado a compra de uma parte do Master pela instituição.
Era o fim do projeto Vértice, como foi batizada a operação secreta montada pelo comando do BRB com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Para alguns funcionários que alertaram o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, do risco de um negócio com um banqueiro novato e de baixíssima reputação, a sensação foi de alívio. Entre aqueles que jogaram o banco público numa crise sem precedentes havia uma grande tensão. Às 21h da noite do dia 3, a decisão do BC de barrar o negócio só seria comunicada oficialmente no dia seguinte.
A notícia não chegou a surpreender totalmente a Faria Lima, principal centro financeiro do Brasil, que acompanhava Vorcaro desde o fim do ano anterior, quando uma solução de mercado, patrocinada pelo BC com apoio de André Esteves, dono do BTG Pactual, foi tentada para evitar a quebra do Master.
A proposta não foi para a frente devido às resistências dos grandes bancos, em particular do Itaú Unibanco. Procurado, Esteves não quis comentar. A defesa de Vorcaro também disse que não iria se manifestar.
Quando percebeu que o negócio não sairia, Vorcaro começou a dizer a interlocutores, incluindo dirigentes do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que tinha um comprador para o banco.
Os executivos do setor bancário já tinham convicção da inviabilidade do Master. Eram crescentes os rumores sobre os problemas de liquidez e a insatisfação dos grandes bancos privados pelo crescimento do volume de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) emitidos pelo Master com garantia do FGC.
O que mais chamou a atenção do mercado financeiro foi a negociação com o BRB —um dos cinco bancos públicos regionais do país. O acordo foi bancado pelo governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), que mantinha ligação com lideranças de partidos do centrão e conhecidos aliados de Vorcaro no mundo político.
Nos dias seguintes ao anúncio, a pergunta que circulava era: por que um banco público entrou na operação para salvar o Master?
A resposta é hoje um dos principais focos de investigação de um inquérito aberto pela Polícia Federal e que tem Ibaneis, Vorcaro e Paulo Henrique Costa, como investigados, além de integrantes do BRB.
O CEO de um banco, que falou na condição de anonimato, lembra que o negócio foi visto com estranheza: um banco estatal virando controlador de uma instituição privada com problemas sérios de liquidez e cujo dono alimentava a narrativa de que os grandes bancos não queriam concorrência.
Vorcaro dizia que a operação era ganha-ganha para os dois bancos e que teria uma cogestão com o BRB no banco. O Master passaria, segundo ele, a ter acesso ao funding do BRB, mais barato e de longo prazo, e o BRB teria um braço privado com menos amarras, inclusive de regras de licitação governamental, para atuar com maior autonomia.
O BRB vinha chamando atenção no noticiário pelo contrato de patrocínio do Flamengo e pelo empréstimo de R$ 3,1 milhões concedido ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para comprar uma mansão em Brasília, mesmo tendo salário mensal apontado como incompatível para o financiamento.
Apesar da surpresa quando a aquisição foi comunicada ao BC, nos corredores do BRB corria um tititi muito antes, quando começaram reuniões frequentes com pessoas de fora do banco na chamada Sala 1, envidraçada, no gabinete da presidência.
Os encontros começaram em janeiro e logo atraíram a atenção dos funcionários do BRB, que passaram a chamar o grupo de trabalho de “secreto”. Sabia-se nos corredores era que as tratativas visavam à aquisição de um banco. Em pouco tempo, alguns empregados já tinham conhecimento de que se tratava do Master.
Em relatório entregue ao BC no início de fevereiro de 2025, o então presidente do BRB defendia a compra como um movimento estratégico para o crescimento do banco.
Os principais interlocutores de Vorcaro e Paulo Henrique Costa no BC eram o ex-diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, e o ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana. Os dois são hoje investigados por suspeita de facilitar os interesses do Banco Master.
Numa reunião em fevereiro entre Vorcaro, Costa e a diretoria de fiscalização, os representantes do BC pediram para que a proposta de compra fosse formalizada, segundo uma troca de mensagens vista pela reportagem. Procurado, o BC não respondeu a um pedido de informações sobre esse encontro.
Até o veto da operação, foram 159 dias de análise do pedido pelo BC, sob a presidência de Gabriel Galípolo. O período foi marcado por pressões da área política e do setor financeiro, seja para aprovar a operação ou para derrubá-la. Com informações da Folha de São Paulo.
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