Ratinho Junior era, até aqui, o nome mais competitivo fora do eixo Lula-Bolsonaro. (Foto: Reprodução de TV)
Bastou um peteleco na política paranaense para que o principal candidato da direita desistisse e a esperança de uma terceira via na disputa presidencial deste ano se esmaecesse. Como o Brasil foi informado esta semana, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD) – principal nome da direita não bolsonarista para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) passou a se concentrar na reeleição em São Paulo – anunciou que permanecerá no cargo até o fim do mandato, retirando seu nome da lista de presidenciáveis do partido de Gilberto Kassab.
Ainda que tenha creditado a decisão a razões familiares e a justificativas direcionadas ao eleitor paranaense, a desistência tem origem em um imbróglio político local: a articulação do PL para lançar Sergio Moro ao governo estadual. O ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro fará oposição ao governo de Ratinho Junior e concorrerá dando palanque a Flávio Bolsonaro no Estado. É o sinal dos tempos difíceis para qualquer candidatura que se pretenda moderada, moderna e à margem dos limites severos da polarização que aprisiona o Brasil desde 2018: a incapacidade de uma terceira via de se sustentar diante de pressões organizadas e movimentos táticos das forças mais polarizadas.
Ratinho Junior era, até aqui, o nome mais competitivo fora do eixo Lula-Bolsonaro. Tinha base regional ampliada, desempenho relativamente superior nas pesquisas e o aval de um partido com efetiva capilaridade nacional. Ainda assim, bastou uma reconfiguração local para retirar o chão de sua pré-candidatura presidencial. O que parecia uma disputa nacional foi decidido por um cálculo regional.
O episódio mostra que, no Brasil de hoje, projetos presidenciais fora da polarização fracassam pela ausência de estrutura política robusta e pela incapacidade de resistir a movimentos coordenados das máquinas partidárias mais aguerridas. O resultado imediato é um cenário mais estreito. Com a saída de Ratinho Junior, reforça-se a tendência de que a eleição se organize novamente em torno dos dois polos que dominam o debate público há quase uma década. De um lado, o lulopetismo; de outro, o bolsonarismo, agora representado por Flávio Bolsonaro. Não está escrito nas estrelas que será inevitavelmente assim até julho, mês de início das convenções partidárias, mas, neste momento, é o que se apresenta.
Resta saber se os nomes remanescentes da direita terão fôlego e musculatura para resistir às forças adversas. Os governadores Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS), ambos do PSD, e Romeu Zema (MG), do Novo, ainda precisam demonstrar que conseguem ir além de suas bases regionais e construir uma candidatura nacional consistente. O desafio é duplo: ampliar alcance eleitoral e oferecer um projeto capaz de dialogar com a parcela do eleitorado que rejeita tanto Lula quanto o sobrenome Bolsonaro. Segundo pesquisa Ipsos/Ipec, cerca de 22% dos eleitores não querem nem um nem outro. Há ainda quem sustente que parte relevante dos votos hoje atribuídos a Lula e a Flávio Bolsonaro, sobretudo ao último, não é sólida – e poderia migrar diante de um nome competitivo com uma agenda consistente.
Esse espaço potencial, contudo, não se converte automaticamente em viabilidade política. Como mostram análises clássicas sobre a chamada terceira via, em ambientes altamente polarizados o centro tende a se tornar um espaço oco: existe sociologicamente, mas carece de organização, identidade e capacidade de mobilização. Falta-lhe um discurso suficientemente forte para romper a lógica das guerras culturais, assim como lhe falta musculatura política. Sem essas bases, qualquer projeto intermediário se revela estruturalmente vulnerável e pode ser desfeito não por um grande confronto nacional, mas por um rearranjo local, como o que se viu no Paraná. A tarefa requer também a ampliação de alianças e a construção de um projeto que dialogue com um eleitorado cansado da polarização – um eleitor que deseja crescimento econômico, melhor capacidade de entrega do Estado e menos conflito ideológico permanente.
Esse eleitor existe, é numeroso e está à espera de candidatos que, diferentemente de Lula e Flávio Bolsonaro, se proponham não a destruir os adversários, mas a construir o futuro. (Editorial de O Estado de S. Paulo)
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Ratinho Jr. teria desistido da candidatura à Presidência da República para não deixar Sergio Moro ser o grande nome da direita no Paraná
Ratinho Junior era, até aqui, o nome mais competitivo fora do eixo Lula-Bolsonaro. (Foto: Reprodução de TV)
Bastou um peteleco na política paranaense para que o principal candidato da direita desistisse e a esperança de uma terceira via na disputa presidencial deste ano se esmaecesse. Como o Brasil foi informado esta semana, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD) – principal nome da direita não bolsonarista para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) passou a se concentrar na reeleição em São Paulo – anunciou que permanecerá no cargo até o fim do mandato, retirando seu nome da lista de presidenciáveis do partido de Gilberto Kassab.
Ainda que tenha creditado a decisão a razões familiares e a justificativas direcionadas ao eleitor paranaense, a desistência tem origem em um imbróglio político local: a articulação do PL para lançar Sergio Moro ao governo estadual. O ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro fará oposição ao governo de Ratinho Junior e concorrerá dando palanque a Flávio Bolsonaro no Estado. É o sinal dos tempos difíceis para qualquer candidatura que se pretenda moderada, moderna e à margem dos limites severos da polarização que aprisiona o Brasil desde 2018: a incapacidade de uma terceira via de se sustentar diante de pressões organizadas e movimentos táticos das forças mais polarizadas.
Ratinho Junior era, até aqui, o nome mais competitivo fora do eixo Lula-Bolsonaro. Tinha base regional ampliada, desempenho relativamente superior nas pesquisas e o aval de um partido com efetiva capilaridade nacional. Ainda assim, bastou uma reconfiguração local para retirar o chão de sua pré-candidatura presidencial. O que parecia uma disputa nacional foi decidido por um cálculo regional.
O episódio mostra que, no Brasil de hoje, projetos presidenciais fora da polarização fracassam pela ausência de estrutura política robusta e pela incapacidade de resistir a movimentos coordenados das máquinas partidárias mais aguerridas. O resultado imediato é um cenário mais estreito. Com a saída de Ratinho Junior, reforça-se a tendência de que a eleição se organize novamente em torno dos dois polos que dominam o debate público há quase uma década. De um lado, o lulopetismo; de outro, o bolsonarismo, agora representado por Flávio Bolsonaro. Não está escrito nas estrelas que será inevitavelmente assim até julho, mês de início das convenções partidárias, mas, neste momento, é o que se apresenta.
Resta saber se os nomes remanescentes da direita terão fôlego e musculatura para resistir às forças adversas. Os governadores Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS), ambos do PSD, e Romeu Zema (MG), do Novo, ainda precisam demonstrar que conseguem ir além de suas bases regionais e construir uma candidatura nacional consistente. O desafio é duplo: ampliar alcance eleitoral e oferecer um projeto capaz de dialogar com a parcela do eleitorado que rejeita tanto Lula quanto o sobrenome Bolsonaro. Segundo pesquisa Ipsos/Ipec, cerca de 22% dos eleitores não querem nem um nem outro. Há ainda quem sustente que parte relevante dos votos hoje atribuídos a Lula e a Flávio Bolsonaro, sobretudo ao último, não é sólida – e poderia migrar diante de um nome competitivo com uma agenda consistente.
Esse espaço potencial, contudo, não se converte automaticamente em viabilidade política. Como mostram análises clássicas sobre a chamada terceira via, em ambientes altamente polarizados o centro tende a se tornar um espaço oco: existe sociologicamente, mas carece de organização, identidade e capacidade de mobilização. Falta-lhe um discurso suficientemente forte para romper a lógica das guerras culturais, assim como lhe falta musculatura política. Sem essas bases, qualquer projeto intermediário se revela estruturalmente vulnerável e pode ser desfeito não por um grande confronto nacional, mas por um rearranjo local, como o que se viu no Paraná. A tarefa requer também a ampliação de alianças e a construção de um projeto que dialogue com um eleitorado cansado da polarização – um eleitor que deseja crescimento econômico, melhor capacidade de entrega do Estado e menos conflito ideológico permanente.
Esse eleitor existe, é numeroso e está à espera de candidatos que, diferentemente de Lula e Flávio Bolsonaro, se proponham não a destruir os adversários, mas a construir o futuro. (Editorial de O Estado de S. Paulo)
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