Presidente da Unafisco explica como funciona o sistema do órgão e quais informações podem ser acessadas. (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)
As ações do STF (Supremo Tribunal Federal) contra servidores da Receita Federal tornaram a fiscalização das chamadas “pessoas politicamente expostas” uma atividade de risco, afirma Kléber Cabral, presidente da Unafisco Nacional (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil).
Ele prestou depoimento nessa sexta-feira (20) à Polícia Federal, por ordem do ministro do STF Alexandre de Moraes, após críticas públicas às ações determinadas pelo magistrado em razão de suspeitas de vazamento de dados da Receita dos ministros.
Em entrevista à Folha, Cabral explicou como funciona o sistema do Fisco, a quais informações os funcionários do órgão têm acesso e o que mudou desde 2019 – naquele ano, Moraes afastou dois auditores por suspeita de vazamento de informações de parentes de ministros e, depois, mandou reintegrá-los porque as suspeitas não se confirmaram. Cabral disse que não comentaria a intimação para depor.
Acesso
O acesso ao sistema depende do cargo, da área em que você trabalha e de onde você está. Os cruzamentos são tratados por auditores. (Para os funcionários) na área de atendimento, os acessos são mais restritos.
A movimentação financeira a que a Receita tem acesso é aquela da E-Financeira. Você sabe quanto entrou e quanto saiu (da conta), mas não tem o extrato, não sabe quem pagou. Se estou com a fiscalização aberta, peço ao contribuinte que apresente os extratos bancários. Se ele recusar, aí a Receita pode emitir uma requisição de movimentação financeira, para o banco entregar o extrato bancário. Você tem que pedir primeiro para o contribuinte. Isso com uma fiscalização aberta.
Alerta
Se você estiver fazendo uma fiscalização e surge uma PPE (pessoa politicamente exposta), aparece um aviso na tela dizendo que é PPE. Aí, precisa justificar para poder avançar. Para outros contribuintes, como eu e você, não tem isso.
Ao justificar, vai uma mensagem para o chefe da unidade, e pode ir uma mensagem para os órgãos centrais, para avisar que alguém está olhando essa pessoa.
A Receita não vai dizer que isso é para proteger essas pessoas. Ela diz que é para proteger o próprio órgão de acessos indevidos, de escândalos, como esse que estamos vendo. Mas a maneira que a Receita escolheu trabalhar, e aí o STF não tem culpa, esse “modus operandi”, inibe o trabalho do auditor.
Tela inicial
Se ele entrou (no registro de uma PPE), ele pode continuar ou não. Foi o que aconteceu com esse colega que está agora com a tornozeleira eletrônica. Ele não avançou, mas ficou registrado que entrou nessa primeira tela, uma tela de cadastro. Fica tudo marcado. Login, tudo que ele olha, quantos minutos, se mandou imprimir, se printou a tela. Além de login e senha, tem um token, um certificado digital. É claro que, se alguém no atendimento deixar a sua senha aberta e vai no banheiro… Só que a chefe seria informada, e a apuração já teria corrido. A Receita tem muito controle. Em se tratando de PPE, o controle é redobrado.
Afastamento
O acontecimento de 2019 deixou marcado na memória dos auditores que a fiscalização sobre pessoas politicamente expostas, no geral, não falo ministros do STF, é algo a ser evitado. Tanto que não houve mais. Ser uma pessoa politicamente exposta aqui no Brasil virou uma espécie de proteção. Mas, nos outros países, não é isso. São pessoas que, pelo cargo que detêm, estão potencialmente mais expostas ao cometimento do crime de corrupção e lavagem de dinheiro. Então a Receita e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) deveriam ter uma maior vigilância sobre esse grupo.
Fiscalização suspensa
Por isso eu estou dizendo que, se você perguntar dentro da Receita se alguém quer fiscalizar o crime organizado, aparece meia dúzia. Se você for fiscalizar PPE, não vai aparecer ninguém. Não quero comparar ministro do STF com crime organizado. É que aquilo marcou a memória dos auditores e desmotivou trabalhos em relação a pessoas politicamente expostas. A experiência foi muito traumática. O que eu quis transmitir é que, até hoje, as pessoas têm muito receio de fiscalizar PPEs. (Com informações da Folha de S.Paulo)
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“Fiscalizar autoridades se tornou atividade de risco”, diz o auditor da Receita Federal intimado por Alexandre de Moraes
Presidente da Unafisco explica como funciona o sistema do órgão e quais informações podem ser acessadas. (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)
As ações do STF (Supremo Tribunal Federal) contra servidores da Receita Federal tornaram a fiscalização das chamadas “pessoas politicamente expostas” uma atividade de risco, afirma Kléber Cabral, presidente da Unafisco Nacional (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil).
Ele prestou depoimento nessa sexta-feira (20) à Polícia Federal, por ordem do ministro do STF Alexandre de Moraes, após críticas públicas às ações determinadas pelo magistrado em razão de suspeitas de vazamento de dados da Receita dos ministros.
Em entrevista à Folha, Cabral explicou como funciona o sistema do Fisco, a quais informações os funcionários do órgão têm acesso e o que mudou desde 2019 – naquele ano, Moraes afastou dois auditores por suspeita de vazamento de informações de parentes de ministros e, depois, mandou reintegrá-los porque as suspeitas não se confirmaram. Cabral disse que não comentaria a intimação para depor.
Acesso
O acesso ao sistema depende do cargo, da área em que você trabalha e de onde você está. Os cruzamentos são tratados por auditores. (Para os funcionários) na área de atendimento, os acessos são mais restritos.
A movimentação financeira a que a Receita tem acesso é aquela da E-Financeira. Você sabe quanto entrou e quanto saiu (da conta), mas não tem o extrato, não sabe quem pagou. Se estou com a fiscalização aberta, peço ao contribuinte que apresente os extratos bancários. Se ele recusar, aí a Receita pode emitir uma requisição de movimentação financeira, para o banco entregar o extrato bancário. Você tem que pedir primeiro para o contribuinte. Isso com uma fiscalização aberta.
Alerta
Se você estiver fazendo uma fiscalização e surge uma PPE (pessoa politicamente exposta), aparece um aviso na tela dizendo que é PPE. Aí, precisa justificar para poder avançar. Para outros contribuintes, como eu e você, não tem isso.
Ao justificar, vai uma mensagem para o chefe da unidade, e pode ir uma mensagem para os órgãos centrais, para avisar que alguém está olhando essa pessoa.
A Receita não vai dizer que isso é para proteger essas pessoas. Ela diz que é para proteger o próprio órgão de acessos indevidos, de escândalos, como esse que estamos vendo. Mas a maneira que a Receita escolheu trabalhar, e aí o STF não tem culpa, esse “modus operandi”, inibe o trabalho do auditor.
Tela inicial
Se ele entrou (no registro de uma PPE), ele pode continuar ou não. Foi o que aconteceu com esse colega que está agora com a tornozeleira eletrônica. Ele não avançou, mas ficou registrado que entrou nessa primeira tela, uma tela de cadastro. Fica tudo marcado. Login, tudo que ele olha, quantos minutos, se mandou imprimir, se printou a tela. Além de login e senha, tem um token, um certificado digital. É claro que, se alguém no atendimento deixar a sua senha aberta e vai no banheiro… Só que a chefe seria informada, e a apuração já teria corrido. A Receita tem muito controle. Em se tratando de PPE, o controle é redobrado.
Afastamento
O acontecimento de 2019 deixou marcado na memória dos auditores que a fiscalização sobre pessoas politicamente expostas, no geral, não falo ministros do STF, é algo a ser evitado. Tanto que não houve mais. Ser uma pessoa politicamente exposta aqui no Brasil virou uma espécie de proteção. Mas, nos outros países, não é isso. São pessoas que, pelo cargo que detêm, estão potencialmente mais expostas ao cometimento do crime de corrupção e lavagem de dinheiro. Então a Receita e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) deveriam ter uma maior vigilância sobre esse grupo.
Fiscalização suspensa
Por isso eu estou dizendo que, se você perguntar dentro da Receita se alguém quer fiscalizar o crime organizado, aparece meia dúzia. Se você for fiscalizar PPE, não vai aparecer ninguém. Não quero comparar ministro do STF com crime organizado. É que aquilo marcou a memória dos auditores e desmotivou trabalhos em relação a pessoas politicamente expostas. A experiência foi muito traumática. O que eu quis transmitir é que, até hoje, as pessoas têm muito receio de fiscalizar PPEs. (Com informações da Folha de S.Paulo)
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