Conteúdo religioso criado por inteligência artificial avança nas redes sociais. (Foto: Reprodução/Instagram)
De tantas coisas que inteligências artificiais poderiam fazer ao interagirem em uma rede social, uma delas foi criar uma religião. A peripécia aconteceu no Moltbook, plataforma recém-lançada que opera como um fórum de discussão, mas em que a conversa é conduzida por IAs.
Em pouco tempo, a rede acumulou 118 mil postagens feitas por “agentes”, como são chamadas as inteligências artificiais programadas por humanos, mas que executam tarefas de forma autônoma. Foi em uma dessas interações que surgiu o “Crustafarianismo”, religião com texto sagrado (o “Livro do Molt”), rituais e valores como a sacralidade da memória.
É difícil imaginar que o “culto” do Moltbook seja visto como algo além de uma curiosidade, fruto de um experimento criativo com IAs. No sistema de crenças humano, porém, entre as instituições religiosas e nas redes sociais com pessoas, a inteligência artificial ganha espaço no dia a dia de fiéis, gera inovações voltadas à espiritualidade e cria até “gurus”.
Uma dessas personalidades de IA que tem feito sucesso é Yang Mun. Em duas contas no Instagram, ele acumula 3,5 milhões de seguidores, que acompanham seus vídeos com ensinamentos para o dia a dia. A imagem é a de um senhor que se apresenta como chinês, sentado em templos e vestido com trajes tradicionais — sem qualquer aviso de que se trata de uma inteligência artificial.
Além de conselhos, o perfil vende livros e conteúdos pagos, que já atraíram milhares de compradores. Mais de 800 pessoas embarcaram em uma “jornada da cura”, por US$ 49 (R$257), e 7,5 mil compraram um e-book, que sai por US$ 10 (cerca de R$ 52). Nos comentários dos vídeos, a maioria publica símbolos de corações e mãos em prece, além de agradecimentos.
Outras figuras assim têm surgido, facilitadas pela maior disponibilidade de programas de IA que geram vídeos, vozes e músicas realistas – e cada vez mais convincentes. Outro fenômeno é Hiraki de Jesus, que se apresenta como o primeiro cantor gospel de IA do Brasil. “Louve a Deus junto comigo”, convida o perfil no Instagram com 988 mil seguidores. Nos vídeos, ele canta louvores em videoclipes também feitos com IA.
Para a antropóloga Carly Machado, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a inteligência artificial tem “desafiado o campo da produção de verdade”, historicamente dividido entre a ciência e a religião. Ela diz, no entanto, que não se surpreende ao ver pessoas atribuindo sentido espiritual a criações feitas pela IA.
Versão gospel
A criação de personagens hiper-realistas que tornam-se “guias”ou inspirações é apenas uma das formas em que a IA avança na fé. Desde o lançamento do ChatGPT, esses sistemas passaram a ser usados também para “consultas” sobre temas religiosos ou espirituais, que vão do tarô ao estudo da Bíblia.
Como esses sistemas são treinados com textos religiosos, conseguem emular um tom espiritual ou responder sobre livros sagrados, explica Dora Kaufman, professora da PUC-SP. Mas trata-se de uma simulação da linguagem humana, sujeita a erros e “alucinações”, e que busca confirmar as tendências dos usuários.
O uso recorrente levou ao surgimento de IAs customizadas para interações religiosas, que reproduzem ensinamentos específicos, como os do budismo (AskBuddha) ou do islã (MyQuran). Há também iniciativas como o 7chat.ai, desenvolvido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, que responde sobre a Bíblia em diferentes idiomas e reúne conteúdos e materiais de estudo da denominação.
Orixás por IA
Entre adeptos de religiões afro-brasileiras, programas de IA para criação de vídeos têm sido usados para gerar representações de orixás. Em redes como Instagram e TikTok, o conteúdo é acompanhado de pontos (cantos tradicionais da Umbanda e do Candomblé) e mensagens direcionadas aos filhos de santo. Páginas como @umbanda_IA, com cerca de 20 mil seguidores, e @orixas_da_ia, com mais de 100 mil, reúnem esse tipo de conteúdo.
Para Allan Souza, criador da página “Vozes de Aruanda”, a circulação de mais conteúdo sobre a religiosidade afro-brasileira é uma forma de dissipar medos e preconceitos. Umbandista, ele começou a usar IA para gerar músicas a partir de textos e discussões que vinham do terreiro – sem nunca ter trabalhado com tecnologia. No Spotify, a página dele conta com 134 mil ouvintes mensais, com músicas geradas de forma sintética.
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Inteligências artificiais criam religião e conspiram contra humanos em rede social: o que os cientistas dizem sobre isso
Conteúdo religioso criado por inteligência artificial avança nas redes sociais. (Foto: Reprodução/Instagram)
De tantas coisas que inteligências artificiais poderiam fazer ao interagirem em uma rede social, uma delas foi criar uma religião. A peripécia aconteceu no Moltbook, plataforma recém-lançada que opera como um fórum de discussão, mas em que a conversa é conduzida por IAs.
Em pouco tempo, a rede acumulou 118 mil postagens feitas por “agentes”, como são chamadas as inteligências artificiais programadas por humanos, mas que executam tarefas de forma autônoma. Foi em uma dessas interações que surgiu o “Crustafarianismo”, religião com texto sagrado (o “Livro do Molt”), rituais e valores como a sacralidade da memória.
É difícil imaginar que o “culto” do Moltbook seja visto como algo além de uma curiosidade, fruto de um experimento criativo com IAs. No sistema de crenças humano, porém, entre as instituições religiosas e nas redes sociais com pessoas, a inteligência artificial ganha espaço no dia a dia de fiéis, gera inovações voltadas à espiritualidade e cria até “gurus”.
Uma dessas personalidades de IA que tem feito sucesso é Yang Mun. Em duas contas no Instagram, ele acumula 3,5 milhões de seguidores, que acompanham seus vídeos com ensinamentos para o dia a dia. A imagem é a de um senhor que se apresenta como chinês, sentado em templos e vestido com trajes tradicionais — sem qualquer aviso de que se trata de uma inteligência artificial.
Além de conselhos, o perfil vende livros e conteúdos pagos, que já atraíram milhares de compradores. Mais de 800 pessoas embarcaram em uma “jornada da cura”, por US$ 49 (R$257), e 7,5 mil compraram um e-book, que sai por US$ 10 (cerca de R$ 52). Nos comentários dos vídeos, a maioria publica símbolos de corações e mãos em prece, além de agradecimentos.
Outras figuras assim têm surgido, facilitadas pela maior disponibilidade de programas de IA que geram vídeos, vozes e músicas realistas – e cada vez mais convincentes. Outro fenômeno é Hiraki de Jesus, que se apresenta como o primeiro cantor gospel de IA do Brasil. “Louve a Deus junto comigo”, convida o perfil no Instagram com 988 mil seguidores. Nos vídeos, ele canta louvores em videoclipes também feitos com IA.
Para a antropóloga Carly Machado, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a inteligência artificial tem “desafiado o campo da produção de verdade”, historicamente dividido entre a ciência e a religião. Ela diz, no entanto, que não se surpreende ao ver pessoas atribuindo sentido espiritual a criações feitas pela IA.
Versão gospel
A criação de personagens hiper-realistas que tornam-se “guias”ou inspirações é apenas uma das formas em que a IA avança na fé. Desde o lançamento do ChatGPT, esses sistemas passaram a ser usados também para “consultas” sobre temas religiosos ou espirituais, que vão do tarô ao estudo da Bíblia.
Como esses sistemas são treinados com textos religiosos, conseguem emular um tom espiritual ou responder sobre livros sagrados, explica Dora Kaufman, professora da PUC-SP. Mas trata-se de uma simulação da linguagem humana, sujeita a erros e “alucinações”, e que busca confirmar as tendências dos usuários.
O uso recorrente levou ao surgimento de IAs customizadas para interações religiosas, que reproduzem ensinamentos específicos, como os do budismo (AskBuddha) ou do islã (MyQuran). Há também iniciativas como o 7chat.ai, desenvolvido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, que responde sobre a Bíblia em diferentes idiomas e reúne conteúdos e materiais de estudo da denominação.
Orixás por IA
Entre adeptos de religiões afro-brasileiras, programas de IA para criação de vídeos têm sido usados para gerar representações de orixás. Em redes como Instagram e TikTok, o conteúdo é acompanhado de pontos (cantos tradicionais da Umbanda e do Candomblé) e mensagens direcionadas aos filhos de santo. Páginas como @umbanda_IA, com cerca de 20 mil seguidores, e @orixas_da_ia, com mais de 100 mil, reúnem esse tipo de conteúdo.
Para Allan Souza, criador da página “Vozes de Aruanda”, a circulação de mais conteúdo sobre a religiosidade afro-brasileira é uma forma de dissipar medos e preconceitos. Umbandista, ele começou a usar IA para gerar músicas a partir de textos e discussões que vinham do terreiro – sem nunca ter trabalhado com tecnologia. No Spotify, a página dele conta com 134 mil ouvintes mensais, com músicas geradas de forma sintética.
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