Cientista político vê julgamento do golpe como divisor de águas e Congresso como ‘decepção completa’. (Foto: Reprodução)
A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado marca um divisor de águas na história do País, avalia o sociólogo e cientista político Bolívar Lamounier. “É óbvio que houve uma tentativa de golpe de Estado. Portanto, a pena é prisão, não há conversa.” Ele considera uma “obscenidade” a articulação em curso na Câmara para aprovar anistia. “Este Congresso é uma decepção completa.” A aprovação da “PEC da Blindagem”, que dificulta a abertura de processos judiciais contra políticos, só reforça esse diagnóstico, afirmou.
No entanto, as eleições do próximo ano abrirão a possibilidade de renovação do Congresso, segundo ele. “Tudo indica que Bolsonaro já está fora do jogo. Lula, acho que também sairá”, declarou.
1. Como o senhor avalia a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de oficiais-generais pelo Supremo Tribunal Federal?
É óbvio que houve uma tentativa de golpe de Estado. Portanto, a pena é prisão, não há conversa. As pessoas dizem: “Não pode, cabe anistia”. Como é que cabe anistia? Um país tem uma Constituição. A Constituição representa o Estado. Se as pessoas entram violentamente no palácio presidencial, chegam a chutar a porta do gabinete do presidente… Se isso não é golpe de Estado, não sei o que é golpe de Estado.
2. O que muda no Brasil após esse julgamento?
É um divisor de águas. Creio que não haverá outra situação como essa de militares cometerem um crime evidente, uma tentativa de golpe violento. No dia 8 (de janeiro de 2023) não houve um passeio na Esplanada, houve um quebraquebra. Entraram no palácio, chutaram portas e quebraram obras de arte. Se isso ocorrer outra vez, eles serão novamente presos, julgados e provavelmente condenados. Algumas pessoas dizem que estamos vivendo uma situação anômala. Os três Poderes não se entendem e se xingam mutuamente. Vamos raciocinar. Um país que precisaria crescer 4% ao ano não consegue ultrapassar 2,5%. Com o PIB per capita crescendo 2,5%, levaremos 28 anos para dobrar um PIB que já é medíocre. Ou seja, é claro que o País está tenso, irritado, agonizando.
3. Quais fatores impedem o crescimento do País?
Não estamos discutindo crescimento, apenas equilíbrio orçamentário. E, mesmo assim, não equilibramos, entramos com déficit para o ano que vem. Ou seja, o primeiro elemento é econômico. O segundo é que o elenco está muito abaixo do enredo. Temos uma crise grave, mas, infelizmente, alguns ministros do Supremo e a quase totalidade do Congresso deixam a desejar. Durante a Constituinte, era fácil nomear 20 de alta qualidade, de A a Z, no espectro ideológico. De Roberto Campos a Mário Covas, tínhamos gente de peso. Hoje é difícil indicar cinco. Estamos numa entressafra política, uma geração de má qualidade. Isso não há dúvida.
4. Como resolver isso?
A eleição do ano que vem é crucial para o Brasil. Por sorte, tudo indica que Bolsonaro já está fora do jogo. Nunca deveria ter entrado, mas já está fora. Lula, acho que também sairá. Mesmo quando (Donald) Trump levantou a bola para ele posar de estadista, Lula não conquistou prestígio popular como tentou. Continuou na mesma: quarenta e tantos por cento de apoio, alta desaprovação e já com 79 anos. Não é mais aquele Lula esperto que um dia ia à Fiesp e no outro falava para operários na carroceria de um caminhão. Ele não é mais aquele Lula. Se for reeleito, será outro desastre, pois teremos um governo inerte, inepto, incapaz de realizar qualquer coisa.
5. O sr. vê bons nomes para disputar a Presidência?
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, conheci superficialmente e tive muito boa impressão. Há, ainda, o Romeu Zema, de Minas. Mas ainda temos um ano pela frente.
6. Outros governadores aparecem bem posicionados nas pesquisas, como Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e Ratinho Júnior, do Paraná. O que acha deles?
Não os conheço muito, vou ser franco. Sei um pouco sobre a biografia política deles e que têm um prestígio considerável. O do Rio Grande do Sul (Eduardo Leite) também.
Como avalia a anistia em discussão no Congresso?
Deste Congresso, do Centrão, dos bolsonaristas, não há como esperar outra coisa. A palavra cabível é obscenidade. Ele (Bolsonaro) acabou de ser condenado à prisão e está preso, por enquanto, domiciliarmente. Eventualmente, será preso e deve ser preso porque comandou uma tentativa de golpe. Isso já foi julgado. Ou seja, este Congresso é uma decepção completa. Sempre ouvi dizer que a democracia precisa de partidos confiáveis, responsáveis, organizados. O Centrão é o quê? Um partido? Não. É algo amorfo, um bando de gente espalhada, tentando arranjar emprego para parentes ou tirar proveito do erário. Precisamos urgentemente renovar este Congresso. Com informações do jornal O Estado de S. Paulo
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No entanto, as eleições do próximo ano abrirão a possibilidade de renovação do Congresso, segundo ele. “Tudo indica que Bolsonaro já está fora do jogo. Lula, acho que também sairá”, declarou.
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É óbvio que houve uma tentativa de golpe de Estado. Portanto, a pena é prisão, não há conversa. As pessoas dizem: “Não pode, cabe anistia”. Como é que cabe anistia? Um país tem uma Constituição. A Constituição representa o Estado. Se as pessoas entram violentamente no palácio presidencial, chegam a chutar a porta do gabinete do presidente… Se isso não é golpe de Estado, não sei o que é golpe de Estado.
2. O que muda no Brasil após esse julgamento?
É um divisor de águas. Creio que não haverá outra situação como essa de militares cometerem um crime evidente, uma tentativa de golpe violento. No dia 8 (de janeiro de 2023) não houve um passeio na Esplanada, houve um quebraquebra. Entraram no palácio, chutaram portas e quebraram obras de arte. Se isso ocorrer outra vez, eles serão novamente presos, julgados e provavelmente condenados. Algumas pessoas dizem que estamos vivendo uma situação anômala. Os três Poderes não se entendem e se xingam mutuamente. Vamos raciocinar. Um país que precisaria crescer 4% ao ano não consegue ultrapassar 2,5%. Com o PIB per capita crescendo 2,5%, levaremos 28 anos para dobrar um PIB que já é medíocre. Ou seja, é claro que o País está tenso, irritado, agonizando.
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Não estamos discutindo crescimento, apenas equilíbrio orçamentário. E, mesmo assim, não equilibramos, entramos com déficit para o ano que vem. Ou seja, o primeiro elemento é econômico. O segundo é que o elenco está muito abaixo do enredo. Temos uma crise grave, mas, infelizmente, alguns ministros do Supremo e a quase totalidade do Congresso deixam a desejar. Durante a Constituinte, era fácil nomear 20 de alta qualidade, de A a Z, no espectro ideológico. De Roberto Campos a Mário Covas, tínhamos gente de peso. Hoje é difícil indicar cinco. Estamos numa entressafra política, uma geração de má qualidade. Isso não há dúvida.
4. Como resolver isso?
A eleição do ano que vem é crucial para o Brasil. Por sorte, tudo indica que Bolsonaro já está fora do jogo. Nunca deveria ter entrado, mas já está fora. Lula, acho que também sairá. Mesmo quando (Donald) Trump levantou a bola para ele posar de estadista, Lula não conquistou prestígio popular como tentou. Continuou na mesma: quarenta e tantos por cento de apoio, alta desaprovação e já com 79 anos. Não é mais aquele Lula esperto que um dia ia à Fiesp e no outro falava para operários na carroceria de um caminhão. Ele não é mais aquele Lula. Se for reeleito, será outro desastre, pois teremos um governo inerte, inepto, incapaz de realizar qualquer coisa.
5. O sr. vê bons nomes para disputar a Presidência?
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Como avalia a anistia em discussão no Congresso?
Deste Congresso, do Centrão, dos bolsonaristas, não há como esperar outra coisa. A palavra cabível é obscenidade. Ele (Bolsonaro) acabou de ser condenado à prisão e está preso, por enquanto, domiciliarmente. Eventualmente, será preso e deve ser preso porque comandou uma tentativa de golpe. Isso já foi julgado. Ou seja, este Congresso é uma decepção completa. Sempre ouvi dizer que a democracia precisa de partidos confiáveis, responsáveis, organizados. O Centrão é o quê? Um partido? Não. É algo amorfo, um bando de gente espalhada, tentando arranjar emprego para parentes ou tirar proveito do erário. Precisamos urgentemente renovar este Congresso. Com informações do jornal O Estado de S. Paulo
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